Publicado em: 29 de agosto de 2025
Entrevista com Alexandre Cabral e Maurício Messa mostra como tecnologia, planejamento e atendimento ao cliente sustentam recordes de transporte em grandes eventos
ALEXANDRE PELEGI
Se você acha que dirigir em São Paulo é difícil, experimente controlar 700 mil pessoas por dia debaixo da terra. Esse é o trabalho do CCO da Linha 4-Amarela, “o cérebro da operação”, como define Maurício Messa, gerente do Centro.
“O nosso diferencial é o sistema CBTC, que permite aproximar trens a apenas 15 metros, com total segurança. Isso garante mais conforto e regularidade para o passageiro. Hoje somos referência na América Latina”, explicou.
Já Alexandre Cabral, gerente de atendimento das estações, reforça: “É daqui que partem todos os comandos: parar um trem, reduzir velocidade, abrir ou fechar portas. É o coração que bombeia toda a circulação da linha”.
A chegada do GAI
E quando falta braço, entram em cena os olhos: o GAI – Grupo de Análise de Imagens, que mostramos em detalhes na matéria publicada ontem. “Antes, nós do CCO precisávamos parar atividades para buscar imagens de ocorrências. Agora o GAI faz isso, e nós seguimos focados na operação em tempo real”, disse Messa.
Cabral completou, rindo: “O GAI veio para salvar o dia — e o café da equipe também”.
Menos sardinha, mais metrô
O contrato da concessão permite até seis passageiros por metro quadrado no pico. Mas a ViaQuatro resolveu trabalhar com quatro a quatro e meio. “Ninguém merece ser espremido. A gente prefere oferecer espaço e conforto para o cliente”, afirmou Cabral.
O resultado aparece nos números: “Temos hoje intervalos de 114 segundos entre trens, com regularidade e constância. É o menor intervalo da América Latina”, destacou Messa.
Quando o Morumbi vira mar de gente
E nos dias de show? Aí a coisa esquenta. “Quando o Coldplay veio, tivemos cinco dias seguidos de operação especial. Foram dezenas de milhares de pessoas chegando juntas à estação São Paulo-Morumbi”, lembrou Cabral.
Messa emendou: “O grande desafio é transformar 60 mil pessoas saindo ao mesmo tempo em um fluxo controlado. É quase mágica, mas é fruto de muito planejamento”.
No Carnaval, a operação chega a durar sete dias de folia subterrânea. “Terminamos um Carnaval já planejando o próximo”, contou Cabral.
Treinamento high-tech com clima gamer
Não é só tecnologia: tem gente bem treinada por trás. “Mais de 300 agentes passam a cada três meses por reciclagem em simulador de trens no Pátio Vila Sônia”, explicou Messa.
Cabral completou: “Também usamos óculos de realidade virtual para simular falhas. É quase um videogame, só que na operação real, se você errar, 849 mil passageiros percebem. Por isso, cada detalhe conta”.
Graças a esse preparo, a pesquisa de satisfação bateu 92,5% de avaliações como “bom” e “muito bom”.
Cultura no meio do caminho
E não pense que o metrô vive só de tecnologia e multidão. Também tem cultura: “Levamos Clarice Lispector, Tarsila do Amaral, Luiz Gonzaga e Villa-Lobos para dentro das estações. É cultura gratuita para o passageiro”, disse Cabral.
“Teve até show do Rasta Pé no saguão. Quem disse que estação de metrô não pode ter forró?”, brincou Messa.
A ideia, segundo eles, é transformar as estações em espaços de serviços e acolhimento. “Queremos que o cliente sinta que a estação é mais que um lugar de passagem. É um espaço de convivência”, resumiu Cabral.
Por trás de cada viagem que parece simples, existe uma orquestra de gente — e de siglas — trabalhando para que ninguém perceba a confusão que seria se um botão fosse apertado errado…
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes