Publicado em: 18 de novembro de 2025

Especialistas apontam que ampliação do uso do transporte já seria medida para reduzir o consumo dos carros e motos e impactaria até mesmo a inclusão social
ADAMO BAZANI
Na reta final da COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025) que ocorre até sexta-feira, 21 de novembro de 2025, em Belém (PA) um dos grandes entraves e quedas de braço para que haja um consenso para que as nações firmem um compromisso oficial de reduções de poluições residem justamente sobre a transição do uso de combustíveis fósseis, derivados de petróleo, para fontes mais limpas, como biocombustíveis e energia elétrica com matrizes sustentáveis, como por hidrelétricas e usinas eólicas.
As questões, para a definição de um chamando “mapa de transição”, que especificaria as medidas a serem tomadas pelas diferentes nações, residem em pontos como quais seriam as metas, o ritmo delas e o financiamento de tudo isso.
Nações em desenvolvimento querem que os países mais ricos, que geram mais poluentes, ampliem os financiamentos para a transição energética. Por sua vez, estas nações mais ricas não querem suportar os custos maiores sob o pretexto de que os países em desenvolvimento poderiam se acomodar, contando apenas com a ajuda internacional.
As metas de reduções e das aplicações de recursos também mudam de lado entre as nações mais ricas e desenvolvidas.
Um consenso é que o Petróleo ainda tem sobrevida. No Brasil, inclusive, e se o País abandonar seus investimentos na produção e distribuição mais autônoma, pode ampliar a dependência do mercado internacional e perder recursos, dinheiro, inclusive, que poderia financiar uma transição energética sustentável, não apenas do ponto de vista ambiental, mas econômico.
Nos centros urbanos, um dos maiores emissores são os transportes de cargas e passageiros.
Outro consenso é que medidas para tornar mais eficientes e interessantes os transportes coletivos já existentes diminuiriam o uso do transporte individual que, do ponto de vista energético e ambiental, é pouquíssimo eficiente.
Um estudo de 2024, usado em debates da COP30, mostra que os ônibus, independentemente das fontes de energia, têm alta eficiência energética por passageiro transportado em relação as carros ou motos. Mais ônibus ou, melhor ainda, ônibus mais velozes que com uma frota menor poderiam atender uma quantidade maior de pessoas, poderiam fazer com que o consumo de energia por pessoa que se desloca seja reduzido em oito vezes.
Isso porque, a análise mostra que “um usuário de automóvel consome, em média, cerca de 8 vezes mais energia do que um passageiro de ônibus. Estudos apontam que carros requerem aproximadamente 2,1 vezes mais energia por pkm do que ônibus”.
O trabalho é de responsabilidade da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH, que atua no Brasil desde 1993 ,principalmente em nome do Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento (BMZ, sigla em alemão), do Ministério Federal do Meio Ambiente, Proteção da Natureza, Segurança Nuclear e Defesa do Consumidor (BMUV, sigla em alemão), do Ministério Federal da Economia e Ação Climática (BMWK, sigla em alemão) e do Ministério Federal das Relações Exteriores (AA, sigla em alemão).da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH.
Assim, só de deixar os ônibus mais eficientes, os ganhos ambientais e econômicos (com redução de custos relacionados a saúde pública e segurança viária) já seriam medidas de transição, sem, no entanto, deixar de lado a necessidade de ampliar (gradativamente e com os pés no chão) os modelos que não dependem do diesel (como os ônibus elétricos, biodiesel e biometano). Isso, obviamente somando com os esforços para ampliar os atendimentos por trilhos que ainda são mais eficientes, mas têm implantação cara, mais lenta e tecnicamente inviáveis em algumas regiões. Trilhos e ônibus não se excluem.
Ampliar a frota de ônibus elétricos e com combustíveis alternativos de maneira responsável não significa “enrolar” e perder tempo.
Pelo contrário, o Diário do Transporte mostrou em reportagem especial direto da Cop30, em Belém, que a chamada “agenda ambiental” em busca da redução de emissões por veículos, ainda mais os pesados como ônibus e caminhões, pode ser estratégia econômica para o Brasil, que tem potencial desde o aprimoramento e expansão do biodiesel e biocombustíveis, o incentivo à distribuição do biometano (combustível obtido da decomposição de resíduos) e o fortalecimento da indústria nacional de ônibus elétricos.
Relembre:
Mas enquanto (e não antes) se amplia frotas novas, com tecnologias menos poluentes, dar mais eficiência e atratividade aos ônibus é essencial.
Se o ônibus elétrico fica preso no trânsito, quem está no carro, vai continuar no carro. E o objetivo principal não será alcançado: aumentar a eficiência energética dos deslocamentos.
Neste aspecto, segundo o estudo, os BRTs (corredores de ônibus de maiores capacidades e velocidades) são medidas essenciais de relativo baixo custo e mais rápida implantação.
Estes sistemas devem ser concebidos já pensando na integração com outros meios de transportes.
Sistemas BRT são caracterizados por serem corredores de ônibus com pistas exclusivas, altas velocidades de viagem e rápidos sistemas de embarque. Eles são projetados para fornecer transporte público confortável em veículos e estações de boa qualidade bem como excelentes serviços ao usuário e sistemas integrados de tarifas. Sistemas de transporte público já existentes podem ser melhorados com uma série de medidas, tais como ter corredores de ônibus separados ou dar prioridade aos ônibus nos cruzamentos para ajudá-los a trafegar rapidamente e melhora sua confiança. Segurança e elevados padrões de design para os veículos e a estações contribuem bastante para o conforto dos passageiros, o que, por sua vez, ajuda a tornar os transportes públicos atraentes para os cidadãos. Recursos para melhorar o conforto das estações e dos veículos (p. ex., pontos de ônibus, terminais de embarque e melhor iluminação) poderiam ser fornecidos ao menos nas estações principais. Uma importante medida para melhorar os serviços de transporte público é a integração de diferentes infraestruturas de transporte público. A infraestrutura física e as redes de transporte poderiam ser ajustadas e coordenadas de modo que os passageiros possam se transferir facilmente entre diferentes serviços. As divisões de planejamento de transporte deveriam cooperar rigorosamente com os operadores do transporte público, que tem de ajustar seus horários para proporcionar um sistema totalmente integrado (para mais detalhes sobre serviços de transporte público integrado, ver Seção 3.2.1). – diz o estudo.
Os BRTs, por exigirem uma frota proporcionalmente por passageiro menor, por estarem localizados em eixos com maior estrutura e por terem uma área de operação mais controlada (em comparação com vias de periferias e com manobras mais difíceis) seriam também os mais indicados para a aplicação inicial de ônibus de nova tecnologia, com abrangência social também.
Neste aspecto, residem os BRTs Metropolitanos, que ligam diferentes cidades vizinhas numa área conurbada.
Em Belém (PA), o Diário do Transporte conferiu de perto os benefícios de um BRT Metropolitano, que conta inclusive, com parte da frota de ônibus elétricos.
Cidades que eram excluídas de um acesso rápido e com tarifas menores aos passageiros até a capital passaram a contar com ligações mais diretas.
Relembre:
No evento, ao repórter Adamo Bazani, o Ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, disse que um dos caminhos para garantir melhor acesso a população em tempo menor de implantação são os BRTs (Bus Rapid Transit), corredores de ônibus de maior capacidade e velocidade que os corredores expressos mais comuns.

Jader Filho citou o exemplo do BRT Metropolitano de Belém, inaugurado recentemente e que, como mostrou o Diário do Transporte ao visitar o sistema, barateou os deslocamentos entre diferentes cidades e fez com que municípios que não tinham nenhum acesso a capital, como Castanhal e Santa Isabel, por uma ligação de ônibus metropolitanos diretos, passassem a oferecer esse serviço.
Segundo o Ministro, os BRTs Metropolitanos estão entre as prioridades da pasta de Cidades.
Relembre:
Na capital paulista, mesmo sendo um sistema estritamente municipal (mas que poderá se conectar a corredores metropolitanos e trilhos), o projeto “Corredores Verdes”, do prefeito Ricardo Nunes, recebeu avaliações positivas de especialistas.
O projeto consiste na requalificação dos atuais corredores de ônibus e criação de novos eixos que contempla operação de modelos somente elétricos e incluem outras medidas ambientais, como paradas e estações com energia solar, sistemas de drenagem e reaproveitamento de água de chuva, tratamento de efluentes e maior área de ajardinamento. O primeiro “Corredor Verde” será a requalificação do atual Corredor 9 de Julho/Santo Amaro, que liga o centro à zona Sul da capital e é atualmente o eixo mais movimentado de transporte coletivo municipal, com cerca de 700 mil passageiros por dia. A promessa da prefeitura é que o Trecho 1 do Corredor, na região da Avenida 9 de Julho, no centro, esteja já em operação de acordo com a nova modelagem ainda em 2025.
O Diário do Transporte foi a Belém (PA), a convite da Eletra Industrial, empresa 100% brasileira que produz ônibus elétricos em São Bernardo do Campo (SP) e realiza consultorias para implantação de sistemas de transportes eletrificados para gestores públicos e empresas de ônibus, por meio do serviço Eletra Consult.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


