Publicado em: 1 de janeiro de 2026

Eletrificação de frotas de ônibus, licitações e mudanças na lei devem movimentar setor em meio às eleições federais e estaduais
ADAMO BAZANI
Entre as diversas perspectivas para a mobilidade em 2026, destacam-se, o avanço da eletrificação, principalmente em outras cidades, além da capital paulista, o debate sobre a tarifa-zero, e também licitações de médios e grandes sistemas, entre os quais, em alguns, também haverá exigência de eletrificação de frotas.
O clima de eleições, que ocorrem nos níveis estaduais e federais, já começou e transportes sempre estão entre as principais pautas e promessas.
Como mostrou o Diário do Transporte, um dos cuidados que o setor deve ter no debate sobre a redução de poluição pelos deslocamentos de cargas e passageiros, é evitar o clima de “Fla x Flu” entre fontes como biometano e biocombustíveis e ônibus e caminhões elétricos.
As decisões devem ser técnicas e não pode haver a leitura de que biocombustíveis biometano e tudo que é ligado ao “Agro” é coisa de direita e elétrico, de esquerda.
Todas as soluções são importantes. Basta aplicar cada uma no que for mais adequado.
Relembre o artigo:
Há estimativa de crescimento, principalmente em relação ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da mobilidade, que tem recursos sobressalentes para a inclusão de ônibus elétricos, que serão contemplados em muitas dessas licitações e novas concessões previstas, além dos contratos atuais, como da própria capital paulista, onde são impedidos ônibus a diesel desde 17 de outubro de 2022.
Os entraves principais, entretanto, continuam ligados a falta de infraestrutura adequada.
Outras capitais, como Salvador, também já anunciaram verbas do Banco Mundial e de outras linhas de financiamento para eletrificação.
Os corredores de ônibus, em especial os que ligam diferentes cidades dentro de uma mesma região, os BRTs Metropolitanos, foram apontados por especialistas como soluções eficientes, de integração e inclusão social, de relativo baixo custo e mais fácil implantação. O Governo Federal sinaliza liberar recursos e incentivar projetos, ainda mais de corredores para ônibus elétricos.
Como BRTs Metropolitanos são de gestões estaduais, caberá aos governadores (e aos candidatos), deixarem ideologia de lado, de partido ou convicção política, e aproveitarem a sinalização federal para estes sistemas elétricos mais estruturados.
Na cobertura do Diário do Transporte à COP30, o Ministro das Cidades, Jader Filho, disse ao repórter Adamo Bazani que justamente pela carência de mobilidade com mais qualidade em ligações entre diferentes cidades numa mesma região e pelo caráter de integração e inclusão que estes sistemas podem ter, os BRTs Metropolitanos estão entre os focos de financiamento, estudos e planejamentos da pasta e que modelo de Belém deve ser replicado pelo país.
Relembre:
O Diário do Transporte mostrou que, bem no finalzinho do ano de 2025, em 22 de dezembro, o Conselho Diretor do Banco Mundial aprovou uma liberação de US$ 500 milhões para a financiar cerca de 540 ônibus elétricos no Brasil, contando com infraestrutura.
Relembre:
Trata-se da primeira fase da chama Abordagem Programática Multifásica (APM) para Eletromobilidade no Brasil, que visa auxiliar as cidades a modernizarem seus sistemas de transporte público, melhorarem a qualidade do serviço e reduzirem as emissões por meio da introdução de ônibus elétricos (e-ônibus) e infraestrutura associada.
LICITAÇÕES:
Já sobre as licitações nas áreas de transportes por ônibus, sistemas importantes começam a oferecer oportunidades para as atuais empresas permanecerem, só que com contratos novos, ou então novos grupos operadores entrarem em determinados sistemas, entre os quais Rio de Janeiro, onde em fevereiro de 2026 há estimativa de lançamento já das primeiras ofertas
Também devem movimentar as licitações, Aracaju que tem imbróglios jurídicos ainda a serem vencidos, Curitiba e a capital paulista. Isso mesmo, a cidade de São Paulo com uma possível licitação significativa em 2026.
O prefeito Ricardo Nunes disse ao Diário do Transporte que, uma vez resolvendo todas as questões jurídicas envolvendo a Transwolff, empresa que teve a caducidade de contrato decretada pela gestão municipal e é investigada por uma suposta ligação com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), pode já licitar o sistema. Inicialmente serão operações emergenciais para depois haver a complementação da licitação e da concessão dos transportes.
É uma área operacional da capital paulista maior do que muitas cidades. Para se ter uma ideia, hoje a Transwolff opera com 1.206 ônibus, mais de 110 linhas e transporta mais de 550 mil pessoas. Esses números, de uma região só da cidade de São Paulo, a zona Sul, são maiores que muitas cidades inteiras, inclusive sistemas de transportes de capitais.
MARCO REGULATÓRIO:
Parece repetido e, em vez de um texto sobre perspectiva, parece uma retrospectiva.
Mas é o tal Marco Regulatório dos Transportes Urbanos e Metropolitanos, que tem o objetivo de atualizar as normas sobre concessões, operações e contratos que deixariam os sistemas mais modernos e mais adequados às necessidades da população. A Comissão de Desenvolvimento Urbano (CDU) da Câmara dos Deputados aprovou em 10 de dezembro de 2025, o parecer do Projeto de Lei 3.278/2021. Mas o problema é que a proposta patina desde 2021 e, o debate, já é de décadas.
A pergunta é: será que como em 2022, 2023, 2024, 2025; em 2026, o Marco Regulatório entrará nas perspectivas para 2027?
Mas para inovar, nem sempre é necessário esperar leis e mudanças contratuais profundas dentro de um sistema de transportes. Exemplo é o Circular da Saúde de Santo André, no ABC Paulista.
O “Circular da Saúde”, da cidade de Santo André, no ABC Paulista, recebeu 91% de aprovação dos passageiros. É o maior índice de aceitação entre pesquisas a respeito de mobilidade no Brasil. Apesar de as metodologias entre os diferentes levantamentos não serem as mesmas, as técnicas básicas de pesquisas seguem as mesmas linhas.
Mas qual é o grande diferencial do “Circular da Saúde” de Santo André, que com duas linhas, une os principais hospitais da cidade, tanto públicos como particulares? É que o conceito de transporte sob demanda foi aplicado no transporte coletivo regular.
As duas linhas, a principal B45 (Bairro Paraíso-Hospital Mário Covas/Vila Luzita-Represa) e a B31 (Jardim Santo André/Atrium Shopping-Poupatempo da Saúde), foram concebidas a partir de dados de solicitações em aplicativos de transportes, dados de demanda, origem e destino da Bilhetagem Eletrônica da cidade, reportagens (*com destaque para as realizadas pelo Diário do Transporte*) e, claro, de reivindicações de passageiros. A moradora da região de Vila Luzita, por exemplo, Maria José da Silva Francisco, chegou a organizar um abaixo-assinado, com bastante adesão.
A operação de ambas as linhas é de responsabilidade da Viação Guaianazes, lote 01, líder do Consórcio União Santo André.
Relembre:
TARIFA ZERO:
Um dos temas que deveria ser mais visto do ponto de vista técnico, mas fatalmente em época de eleições vai ganhar contornos partidários, será uma “Tarifa-Zero” nacional para os transportes públicos.
Especialistas, que analisam o aspecto apenas técnico, não descartam que assim como existe o SUS (Sistema Único de Saúde), também poderia haver um Sistema Único da Mobilidade. Como ninguém passa numa catraca e paga para entrar num hospital público, um dia isso seria possível nos ônibus, trens e metrôs?
Talvez, mas tudo a seu tempo. Primeiro, conhecer os custos, os sistemas, as consequências e ir avançando aos poucos, de forma racional. Tudo por etapas e de forma estruturada para que boas ideias não se tornem más realidades. As primeiras buscas devem ser por ampliar a eficiência, atrair recursos e melhorias para os serviços não dependerem apenas de custeio por tarifa ou subsídios com injeções diretas de recursos e, inicialmente, reduzir o peso dos transportes na renda das famílias de uma forma gradual, mais direcionada a quem precisa e, depois, ir ampliando.
Como tem mostrado o Diário do Transporte, o assunto ganhou contornos nacionais quando, após ser incentivado por Tatto, que já foi secretário municipal de transportes da capital paulista, mas nunca implantou a gratuidade nos ônibus do sistema SPTrans (São Paulo Transporte), o presidente da República Luís Inácio Lula da Silva determinou que a equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (que foi prefeito e teve Tatto como secretário), estude a viabilidade de uma tarifa zero em todo o Brasil, inicialmente aos domingos e feriados nacionais.
O pedido de Lula a Haddad, que foi em público, durante reunião ministerial em 26 de agosto de 2025, deixou o titular da pasta da Fazenda em situação de constrangimento, que, na conversa com presidente, disse que há restrições orçamentárias para bancar isso no momento, mas prometeu estudar a questão.
Relembre:
Mas na reta final de 2025, uma grande “água no chopp” da Tarifa Zero parece ter surgido.
Um dos símbolos das campanhas em prol da “Tarifa Zero” nos transportes coletivos, a cidade de São Caetano do Sul, no ABC Paulista, deve restringir a partir de 2026, a gratuidade hoje aplicada para qualquer pessoa que embarcar em um dos ônibus da concessionária municipal Vipe (Viação Padre Eustáquio) em qualquer dia da semana e horário, desde 1º de novembro de 2023.
A intenção é reduzir a abrangência da gratuidade apenas para quem mora na cidade de cerca de 200 mil habitantes na região metropolitana de São Paulo.
O prefeito Tite Campanella vai encaminhar ainda no início de 2026, à Câmara Municipal, um projeto de lei com a restrição.
Os moradores devem ter de se cadastrar previamente e obter um bilhete eletrônico.
Segundo o prefeito, os serviços de transportes pioraram, com superlotação e demora, e oneraram município. O valor da tarifa para quem não mora na cidade ainda ser definido, mas deve ficar em tono de R$ 4. A cobrança deve começar em março de 2026.
Relembre:
Apesar do entusiasmo de Lula, nem mesmo dentro do Governo Federal a forma como tem sido apresentado o tema está agradando.
Atuando diretamente com a realidade dos municípios, tanto o ministro das Cidades, Renan Filho, como o secretário Nacional de Mobilidade da mesma pasta, Denis Andia, dizem quem antes de se pensar em gratuidade, é necessário atrair demanda com a melhoria dos serviços, capitalizar os sistemas de transportes e, posteriormente, em vez de gratuidades, se buscar “modicidade tarifária”, ou seja, redução dos valores pagos pelos passageiros.
Veja detalhes dos lançamentos neste link:
2026 promete ser um ano muito agitado nos transportes. O Diário do Transporte irá acompanhar tudo e, com humildade, mas orgulhosamente, veículo de comunicação com cobertura hardnews e factual do setor, o que vai surgir e ainda ninguém espera.
FELIZ 2026.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes, editor-chefe do Diário do Transporte, e toda equipe


