Publicado em: 17 de janeiro de 2026

A TfL, empresa pública que faz a gestão da mobilidade na capital britânica, trata a bilhetagem digital como infraestrutura estratégica da mobilidade urbana, essencial para integrar modais, simplificar o acesso dos passageiros e sustentar a eficiência operacional do sistema
ALEXANDRE PELEGI
A Transport for London (TfL), autoridade responsável pelo planejamento, regulação e gestão de todo o sistema de transporte público da capital britânica, firmou um contrato de longo prazo, estimado em até US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 5,5 bilhões), para modernizar e garantir a evolução contínua dos sistemas de pagamento e bilhetagem de ônibus, metrô, trens urbanos, trams (bondes) e serviços fluviais de Londres.
Anunciado em janeiro de 2026, o investimento consolida a estratégia da TfL de tratar os meios de pagamento como infraestrutura essencial da mobilidade urbana, assegurando que o acesso ao transporte acompanhe o crescimento da demanda, a transformação tecnológica e os padrões internacionais de segurança e confiabilidade. A execução tecnológica do contrato ficará a cargo da Indra, grupo espanhol de tecnologia com atuação global nas áreas de transporte, defesa e sistemas digitais críticos, responsável por operar, manter e evoluir plataformas de arrecadação e controle em grandes redes de transporte ao redor do mundo.
Pagamento integrado como política pública
Londres é referência internacional por permitir que o passageiro utilize um único meio de pagamento — cartão bancário por aproximação, celular, wearables (relógios e pulseiras inteligentes) ou cartão Oyster — em todos os modais de transporte, com cálculo automático da melhor tarifa ao longo do dia ou da semana. O novo contrato garante a continuidade, a estabilidade e a atualização permanente desse ecossistema, considerado um dos mais avançados do mundo.
O sistema do transporte de Londres utiliza o fare capping (limite tarifário). A cada viagem, o uso é registrado, mas o valor final só é fechado ao fim do dia ou da semana. Quando o passageiro atinge o teto diário ou semanal, as viagens seguintes não são cobradas, garantindo automaticamente sempre a opção mais barata, sem necessidade de compra prévia de passes.
Segundo a TfL, a iniciativa mantém o sistema preparado para operar em grande escala, em uma rede que registra milhões de viagens diariamente, sem criar barreiras de acesso para moradores, visitantes ou usuários ocasionais.
Escopo do investimento
O acordo prevê a modernização e a operação de componentes centrais do sistema de pagamento, incluindo:
- validadores e bloqueios de acesso,
- sistemas de pagamento por aproximação,
- infraestrutura de back-office e processamento tarifário,
- equipamentos de inspeção,
- plataformas de dados e segurança digital.
O contrato tem valor inicial estimado em cerca de US$ 700 milhões (aproximadamente R$ 3,5 bilhões), podendo chegar a cerca de US$ 1,1 bilhão (em torno de R$ 5,5 bilhões) ao longo de sua vigência, até 2039, conforme extensões contratuais e serviços adicionais. Após um período de transição de aproximadamente dois anos, o fornecedor passa a responder integralmente pela operação tecnológica desses sistemas.
A infraestrutura de back-office é o “sistema por trás do sistema” do transporte público. O back-office é onde os computadores registram as viagens, calculam o valor correto da passagem, integram ônibus, metrô e outros modais e fazem a divisão do dinheiro entre as empresas operadoras. Mesmo invisível para o passageiro, é essa estrutura que permite pagar a viagem com cartão, celular ou aplicativo de forma simples, automática e integrada.
Crédito: Transport for London
Londres na vanguarda global dos meios de pagamento
Comparativamente a outras grandes metrópoles, Londres se destaca por ter adotado, ainda na década passada, um modelo de pagamento aberto (open loop), no qual cartões bancários e dispositivos pessoais substituem bilhetes físicos e cartões exclusivos.
Cidades como Nova York, Chicago e Sydney avançaram em soluções semelhantes, mas, em muitos casos, de forma parcial ou restrita a determinados modais. Em Londres, o diferencial está na integração plena: ônibus, metrô, trens urbanos, trams (bondes) e serviços aquáticos operam sob a mesma lógica tarifária digital, sem necessidade de múltiplos cartões ou aplicativos.
Tendências globais incorporadas pela TfL
O investimento da TfL reflete tendências internacionais já consolidadas nos grandes sistemas de transporte coletivo:
- Bilhetagem baseada em contas (Account-Based Ticketing – ABT): o cálculo da tarifa ocorre em sistemas centrais, e não na catraca, permitindo múltiplos meios de pagamento e aplicação automática do melhor preço ao usuário.
- Pagamentos digitais e por aproximação: cartões contactless, celulares e wearables (dispositivos vestíveis) tornam o acesso mais rápido e reduzem custos operacionais.
- Integração multimodal e uso de dados: informações de viagem passam a apoiar planejamento, ajustes de oferta e políticas tarifárias.
- Contratos estruturantes de longo prazo: garantem estabilidade operacional e capacidade contínua de inovação tecnológica.
Ao apostar fortemente na modernização dos meios de pagamento, a Transport for London reforça a ideia de que a experiência do usuário e a inteligência digital são fatores centrais para a atratividade do transporte coletivo.
Mais do que um avanço tecnológico, o investimento consolida uma política pública que posiciona Londres entre as cidades líderes mundiais em bilhetagem integrada, mostrando que, nas grandes metrópoles, o futuro do transporte público passa tanto pelos trilhos e veículos quanto pelos sistemas invisíveis que conectam toda a mobilidade urbana.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


