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Risco real ou narrativa anti-China? – Após operadoras de transportes da Noruega e Dinamarca, empresa australiana anuncia nova investigação sobre cibersegurança em ônibus elétricos chineses


Veículos podem ter funções controladas remotamente da China. Tecnologia também é presente em modelos europeus. Condições de monitoramento devem ficar bem claras em contratos de compra e manutenção

ADAMO BAZANI

A Transport Canberra, operadora e gerenciadora dos transportes de Canberra, capital da Austrália, empresa pública, anunciou em 21 de janeiro de 2026 que começou uma nova investigação sobre supostos riscos de segurança cibernética em ônibus elétricos chineses da marca Yutong.

O governo do Território da Capital Australiana (ACT) comprou 90 veículos em 2023 como parte de um plano de transição para emissão zero. A operação dos veículos continua normalmente, mesmo com as apurações em curso.

Há também coletivos da marca operando em outras localidades australianas, como em Nova Gales do Sul, com 26 unidades e quatro em Queensland.

Ao todo, segundo o governo, existem circulando na Austrália, 133 ônibus Yutong Bus urbanos e 12 do tipo fretamento.

Novamente a questão reside se pode haver brechas para a atuação de hackers ou de pessoas contra a segurança nacional em uma tecnologia de controle e monitoramento remoto, que em tese poderia até mesmo fazer com que da China os ônibus fossem ligados, desliados, terem as rotas acompanhadas e, até mesmo, inutilizados.

Chamada de OTA (Over The Air), que permite atualizações e assistências remotas, a função é presente em qualquer tipo de veículo moderno, inclusive nos fabricados por empresas europeias e norte-americanas, também.

A questão não é a tecnologia em si, e nem a montadora, mas as vulnerabilidades que este tipo de função pode representar.

Mas, no caso da marca chinesa, segundo as autoridades de transportes, a Yutong Bus teria de prestar mais esclarecimentos sobre tudo que seria possível com o OTA (Over The Air), ou seja, teria faltado informação.

Como mostrou o Diário do Transporte, em outubro de 2025, a Ruter, autoridade de transportes de Oslo, capital da Noruega, já havia iniciado apurações sobre se os ônibus elétricos Yutong Bus da poderiam ter funções controladas da China, como desligamento de baterias, partida, frenagem, além de acesso a dados de operacionais.

Na vizinha Dinamarca, a empresa de transportes “Movia” afirmou que já revê as avaliações de risco relacionadas à segurança cibernética e à possível espionagem em ônibus regulares, bem como possíveis medidas para prevenir ataques de hackers, uso indevido de dados e riscos de paralisação dos veículos.

Desde então, uma investigação do Departamento de Transportes e do Centro Nacional de Segurança Cibernética (NCSC) do Reino Unido foi aberta e houve avanços divulgados já neste início de janeiro de 2026, como também noticiou o Diário do Transporte.

Segundo as autoridades, os coletivos poderiam sim ter até o funcionamento bloqueado da China e de lá, os dados de operação destes veículos, como quilometragem percorrida e até mesmo rotas poderiam ser acessados pelos chineses.

Logo que descobriu a vulnerabilidade, a gestora pública e operadora Ruter retirou os chips 4Gs dos ônibus elétricos de Oslo, que tem um plano de emissões zero pelos coletivos até 2030.

Segundo o novo relatório, “especialistas descobriram vulnerabilidades em uma plataforma chinesa de atualização de software que tem a Yutong entre seus clientes. As vulnerabilidades foram relatadas ao fornecedor da plataforma e já foram corrigidas”.

Relembre:

A própria australiana Transport Canberra, em novembro de 2025, já havia realizado uma apuração, que apontou que sim, haveria a possibilidade de controle de acionamento remotos, mas que não houve nenhuma interferência por parte da Yutong Bus ou de pessoas externas.

Mas diante do avanço das investigações do Departamento de Transportes e do Centro Nacional de Segurança Cibernética (NCSC) do Reino Unido e do novo relatório, a Transport Camberra decidiu novamente apurar possíveis brechas de cibersegurança.

Como medida preventiva, a estatal australiana anunciou que vai aprofundar as apurações.

“Tendo em conta as últimas observações vindas da Europa, ainda esta manhã, voltamos a contactar a Digital Canberra e iremos analisar novamente a questão, apenas para nos assegurarmos, a nós e à comunidade, de que essas preocupações não existem.” diz nota pública da empresa.

A Yutong afirmou à imprensa local ter enviado mais de 1.500 veículos para a Austrália desde 2012 e defendeu a segurança dos dados e que só faz alterações e atualizações dos veículos na presença dos frotistas por meio de assistência técnica credenciada. A empresa chinesa também divulgou um comunicado dizendo: “Os dados dos terminais de veículos da Yutong na Austrália são armazenados no centro de dados da AWS em Sydney.”

À imprensa europeia, especialistas em segurança cibernética, esclareceram que tudo reside em contratos claros entre fornecedores de ônibus, de tecnologia e operadores de transportes.

Segundo o ABC Net Australia News, o especialista em cibersegurança Alastair MacGibbon, diretor de estratégia da CyberCX e ex-conselheiro de cibersegurança do então primeiro-ministro Malcolm Turnbull, é um crítico ferrenho das importações chinesas de veículos elétricos.

“Existe um risco — e esse risco aumenta cada vez que adicionamos um veículo elétrico às ruas, um veículo fabricado e, portanto, controlado por um estado que não tem nossos melhores interesses em mente”, disse MacGibbon.

A Transport Canberra informou que as atualizações remotas foram desativadas na frota atual e que as atualizações de software são realizadas exclusivamente pela própria operadora australiana de transportes.

O especialista, entretanto, alertou: “Tudo isso é possível em qualquer veículo elétrico conectado. “

MacGibbon afirmou que as medidas tomadas pela Transport Canberra “de forma alguma” atenuaram as ameaças identificadas nos ônibus Yutong no exterior.

“Não importa se for a Transport Canberra que fará o upload do software”, disse.

“Uma coisa que posso garantir é que eles não estão revisando cada linha de código, e mesmo que revisassem, não saberiam o que aquele código fazia.” – prosseguiu, segundo o jornal.

Mas, outros especialistas alertam: um suposto risco contra a cibersegurança pode ocorrer em qualquer veículo conectado, independentemente de onde foi fabricado e o que devem ser avaliadas são as vulnerabilidades reais e não a situação se restringir em ser uma narrativa anti-China, para evitar que os ônibus chineses, mais baratos, deixem de ser competitivos frente aos modelos feitos na Europa, América do Norte e América do Sul, por exemplo.

“Não adianta reduzir o debate em ser ônibus chinês ou de outro mercado. Quais as brechas que a Over The Air (OTA) pode representar. Porque, independentemente da marca, tudo que é remoto pode ter interferência. Claro que existem dispositivos e travas tecnológicas. Mas elas são intransponíveis. Um grupo mal intencionado pode usar o sistema de qualquer um, seja da China, Europa, Estados Unidos ou qualquer outra marca” – disse Adam McGheiu, da Cibersecurity World.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



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