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Em Londres, você pode pegar quantos ônibus e metrôs quiser — e pagar no máximo um teto diário


Sistema da TfL calcula automaticamente as viagens feitas no dia e interrompe a cobrança ao atingir o limite tarifário, modelo conhecido como “capping”

ALEXANDRE PELEGI

Imagine chegar a uma cidade grande, pegar um ônibus, depois o metrô, trocar para um trem urbano, voltar de metrô e, no fim da noite, embarcar novamente em um ônibus para retornar ao hotel.

Imagine fazer tudo isso sem comprar bilhete antes, sem escolher tarifa, sem decidir entre passe diário ou unitário. Basta aproximar o cartão, viajar e seguir o caminho.

Agora imagine descobrir que, independentemente de quantos transportes você use ao longo do dia, existe um limite máximo que pode ser cobrado.

Essa é a lógica do sistema de pagamento do transporte público de Londres.

A rede é administrada pela Transport for London (TfL), órgão público que administra e coordena o transporte público da capital britânica, e integra praticamente todos os modais urbanos em uma única estrutura tarifária. O passageiro pode pagar com cartão bancário por aproximação, celular (Apple Pay ou Google Pay) ou com o Oyster Card, o cartão recarregável da cidade.

O procedimento é simples: aproximar o cartão nos validadores.

Nos ônibus, apenas ao embarcar.
No metrô, nos trens urbanos e em sistemas automatizados como o Docklands Light Railway (DLR), uma espécie de metrô leve automatizado, que opera sem motorista na região leste de Londres, é necessário registrar a entrada e a saída.

A partir daí, o sistema registra automaticamente a estação de origem, o destino, o horário da viagem e as zonas tarifárias percorridas.

Londres é dividida em zonas concêntricas, e o valor da tarifa depende basicamente de dois fatores: quantas zonas foram atravessadas e se a viagem ocorreu em horário de pico ou fora dele.

A integração entre modais ocorre de forma transparente. No mesmo dia, é possível utilizar metrô, ônibus, DLR, serviços do London Overground, a Elizabeth line e a maior parte dos trens suburbanos dentro da área tarifária.

Cada validação fica registrada no sistema.

Ao final do dia, a TfL soma todas as viagens feitas com aquele cartão e aplica automaticamente a regra chamada de “capping”.

Funciona assim: quando o total das viagens atinge o valor equivalente a um passe diário para aquela combinação de zonas, o sistema para de cobrar.

A partir daquele momento, o passageiro pode continuar usando ônibus, metrô ou trem sem custo adicional até o fim do dia.

O mesmo princípio vale também para a semana inteira. Se o uso intenso continuar ao longo dos dias, há também um teto semanal de cobrança.

Modelo londrino x outros modelos de capitais europeias

Segundo Rafael Teles, diretor de Produtos da Transdata e vice-presidente de TI na comissão da UITP Latin America, o modelo londrino foge do padrão predominante na Europa. “O sistema de Londres é uma exceção na Europa, onde predominam os bilhetes diários, semanais e mensais de valor fixo. Ao invés de cobrar um valor prévio mais alto que pode se tornar vantajoso ou não, Londres cobra apenas quando se torna vantajoso para o passageiro”, afirma.

De acordo com o especialista, cidades como Paris, Lisboa, Barcelona, Madrid, Berlim e Veneza adotam sistemas baseados em passes de valor fixo, que funcionam como uma espécie de assinatura antecipada. “Esse modelo permite mecanismos de subsídio cruzado entre passageiros frequentes e ocasionais, algo que o sistema londrino tende a reduzir”, observa.

Há ainda exemplos de sistemas ainda mais sofisticados. Teles cita o caso de Zurique. “Em Zurique o capping é ainda mais avançado, porque não existe um teto fixo como em Londres. O sistema calcula continuamente quais são as tarifas mais convenientes para cada dia, levando em conta quantidade de deslocamentos, distância percorrida e outros possíveis descontos”, explica.

Há ainda o transporte fluvial no rio Tâmisa. Os barcos operados pela Uber Boat by Thames Clippers também aceitam pagamento por aproximação com cartão bancário ou Oyster, utilizando o mesmo princípio de validação. A integração, porém, é apenas tecnológica: as viagens fluviais são cobradas separadamente e não entram no cálculo do “capping” aplicado aos transportes terrestres. Assim, embora seja possível usar o mesmo cartão para embarcar, a tarifa dos barcos não é incluída no teto diário que limita o valor máximo pago em ônibus, metrô e trens urbanos.

E em São Paulo?

O modelo londrino contrasta com o sistema tarifário praticado em São Paulo, onde a integração existe, mas funciona de forma diferente.

Na capital paulista, os passageiros utilizam principalmente o cartão Bilhete Único, que permite integração entre ônibus municipais, metrô e trens metropolitanos dentro de regras específicas.

Ao embarcar em um ônibus e depois utilizar outro ônibus dentro de um determinado intervalo de tempo, o sistema permite integrações pagando uma tarifa reduzida ou um valor máximo previamente definido. Já quando o passageiro combina ônibus com metrô ou trem, há uma tarifa integrada, normalmente mais alta que a do ônibus isoladamente, mas inferior à soma das duas tarifas cheias.

Diferentemente de Londres, porém, o sistema paulista não possui um teto automático diário de cobrança. Cada integração segue regras tarifárias fixas, com limite de quantidade e de tempo para troca de modais. Existe o Bilhete Único Diário (Crédito Comum – 24h), que permite realizar até 10 viagens de ônibus, metrô ou trem em São Paulo durante um período de 24 horas consecutivas, contadas a partir do primeiro uso, por uma tarifa fixa.

Outra diferença importante está nas formas de pagamento. Nos ônibus de São Paulo, além do Bilhete Único, passaram a ser aceitos cartões bancários por aproximação e pagamentos digitais em parte da frota. Já no metrô e nos trens metropolitanos operados pela Companhia do Metropolitano de São Paulo e pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, ainda predominam o QR Code digital, bilhetes eletrônicos e o próprio Bilhete Único, embora o pagamento por aproximação venha sendo gradualmente expandido.

Em termos práticos, isso significa que, enquanto Londres prioriza um cálculo automático que sempre limita o gasto máximo do passageiro ao longo do dia, São Paulo utiliza um modelo baseado em tarifas e integrações previamente definidas.

Para quem circula pela capital britânica, a lógica é simples: aproximar o cartão, viajar e deixar que o sistema faça as contas.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

 



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