Publicado em: 20 de março de 2026

Relatórios oficiais indicam 108 linhas com autorização renunciada e cerca de 220 ainda ativas; desequilíbrio da rede e baixa atratividade econômica explicam crise no sistema
ALEXANDRE PELEGI
O sistema de transporte rodoviário intermunicipal de passageiros em Goiás enfrenta sinais claros de desestruturação. Dados consolidados a partir de relatórios da Agência Goiana de Regulação (AGR) mostram que 108 linhas tiveram autorização renunciada pelas empresas, enquanto cerca de 220 linhas permanecem ativas no estado.
Na prática, isso confirma que mais de um terço da rede intermunicipal já foi devolvida, reforçando alertas do setor sobre a perda de atratividade econômica do sistema.
Além disso, editais recentes de chamamento público têm registrado adesão extremamente baixa. Em um dos casos mais recentes, 153 linhas foram ofertadas e apenas três receberam propostas, evidenciando o desinteresse das operadoras, segundo operadores locais.
Concentração em eixos e esvaziamento do restante da rede
A análise dos dados revela um padrão relevante: as linhas ainda ativas concentram-se majoritariamente em eixos estruturais com origem em Goiânia, conectando cidades de médio e grande porte, como:
- Goiânia – Rio Verde
- Goiânia – Caldas Novas
- Goiânia – Catalão
- Goiânia – Anápolis
- Goiânia – Porangatu
Por outro lado, entre as linhas devolvidas predominam ligações de menor demanda ou de caráter regional/local, como:
- Goiânia – Nazário
- Iporá – Jussara
- Catalão – Ouvidor
- São Luiz de Montes Belos – municípios vizinhos
- diversas conexões semiurbanas e intermunicipais curtas
Esse contraste evidencia um desequilíbrio estrutural da rede, onde apenas os corredores de maior demanda se mantêm viáveis economicamente.
Falhas na estruturação da rede
O advogado Walberty Luna, especialista em regulação do transporte rodoviário com cerca de 25 anos de experiência — incluindo atuação em processos relacionados à ANTT — afirma que a devolução massiva é um sintoma direto de problemas no desenho do sistema.
“Um sistema com 108 linhas devolvidas em um universo de cerca de 330 linhas é um sinal grave. Normalmente, as empresas querem operar linhas — não devolvê-las”, afirma.
Segundo ele, o modelo adotado em Goiás ignora princípios básicos da engenharia de transportes:
“Os sistemas eficientes são estruturados em eixos tronco e alimentadores. O que vemos é a criação de ligações diretas entre localidades com baixa demanda, o que compromete a viabilidade econômica.”
Ausência de planejamento sistêmico
Outro ponto crítico evidenciado pelos dados da AGR é a possível falta de um planejamento integrado da rede.
Enquanto as linhas ativas mostram certa lógica de concentração em corredores principais, as linhas devolvidas indicam:
- dispersão geográfica sem integração
- sobreposição de serviços
- má distribuição de horários
- baixa ocupação dos serviços
- ineficiência sistêmica da rede
“Não se observa um projeto de rede que organize o sistema. O que ocorre é a abertura de chamamentos públicos sem considerar o impacto daquela linha dentro do conjunto do sistema”, afirma Walberty Luna.
Modelo regulatório e classificação inadequada
A legislação estadual (Lei nº 18.673/2014) prevê diferentes regimes conforme a demanda:
- linhas com demanda suficiente podem operar sob autorização
- linhas com menor demanda devem ser estruturadas sob permissão
Na prática, segundo especialistas, a falta de aderência a esse critério pode estar contribuindo para o colapso.
Linhas que deveriam ser estruturadas com regras diferenciadas acabam sendo ofertadas como operações comerciais comuns — o que reduz o interesse das empresas.
Fiscalização insuficiente e concorrência irregular
Operadores também apontam a fragilidade da fiscalização como fator agravante.
Entre os principais problemas relatados:
- Demanda de municípios não atendidos pelo sistema intermunicipal
- Demanda intermunicipal atendida irregularmente pelo sistema interestadual
- Uso de aplicativos de mobilidade de forma irregular (como BlaBlaCar)
- Transporte clandestino
- Fretamento contínuo de prefeituras
- Fretamento eventual irregular
- Número excessivo de linhas em sobreposição
- Má distribuição de horários
Esse cenário retira passageiros do sistema formal, agravando ainda mais a inviabilidade das operações.
Sistema próximo do colapso
A combinação dos fatores — confirmada pelos dados oficiais da AGR — aponta para um sistema em forte deterioração:
- 108 linhas devolvidas (≈33% da rede)
- concentração de operação em poucos corredores
- baixa adesão a novos editais
- perda de operadores
“A baixa adesão aos editais demonstra que as empresas não enxergam atratividade econômica nas linhas. Sem segurança jurídica e sem viabilidade operacional, ninguém vai assumir esses serviços”, afirmou um representante do setor.
Segundo os operadores, o efeito prático já é visível:
“O sistema hoje está colapsando. Os empresários não têm atratividade para investir no estado.”
Especialistas alertam que, sem reorganização estrutural da rede e sem estudos técnicos mais robustos, o transporte intermunicipal pode continuar perdendo cobertura e operadores.
O que é o modelo tronco–alimentador no transporte
O modelo tronco–alimentador organiza o transporte em dois níveis:
Linhas tronco (estruturantes)
Conectam grandes polos com alta demanda e maior frequência.
Linhas alimentadoras
Ligam cidades menores aos eixos principais, garantindo capilaridade.
A lógica é concentrar a maior parte da demanda nas linhas estruturantes, assegurando escala econômica.
Segundo especialistas, quando o sistema ignora essa estrutura e cria ligações diretas entre localidades com pouca demanda, a operação se torna inviável — exatamente o cenário observado em Goiás.
Marco regulatório em Goiás e comparação com a ANTT
O transporte intermunicipal de passageiros em Goiás é regido principalmente pela Lei Estadual nº 18.673/2014, que estabelece as diretrizes para organização, delegação e operação dos serviços no estado.
📌 Lei 18.673/2014 (Goiás)
A legislação define dois regimes principais:
Autorização
- Para linhas com viabilidade econômica
- Operação por conta e risco da empresa
- Sem garantia de equilíbrio econômico-financeiro
Permissão
- Para linhas de menor demanda ou interesse público
- Possibilidade de maior controle estatal
- Em tese, admite mecanismos de equilíbrio
Especialistas apontam que a aplicação inadequada desses critérios tem levado linhas inviáveis a serem ofertadas como operações comerciais.
📌 Modelo federal (ANTT)
No transporte interestadual, regulado pela ANTT:
- modelo também baseado em autorização
- maior uso de dados e critérios técnicos
- monitoramento contínuo do mercado
- avaliação de oferta e demanda
A agência utiliza instrumentos como:
- análise de mercados relevantes
- acompanhamento de ocupação
- ajustes regulatórios com base em desempenho
Diferença central
Enquanto o modelo federal evoluiu para uma regulação orientada por dados, em Goiás há indícios de:
- ausência de planejamento sistêmico
- criação de linhas sem estudos robustos
- falta de mecanismos de correção
Impacto regulatório
Esse desalinhamento contribui diretamente para:
- devolução de linhas
- baixa adesão a editais
- concentração em poucos corredores rentáveis
“Sem uma estrutura regulatória aderente à realidade da demanda, o sistema perde operadores e cobertura”, avaliam especialistas.
ANEXOS:
Requerimentos com as linhas ativas e devolvidas que foram encaminhados pelo Sindicato das empresas de Transporte Rodoviário Intermunicipal e Interestadual de Passageiros do Estado de Goiás – SETRINPE-GO à Agência Goiana de Regulação (AGR):
Linhas ativas:

Linhas devolvidas:

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


