24.6 C
Rondonópolis
segunda-feira, 23 março - 10:03
- Publicidade -
Publicidade
HomeTransportesCom dificuldades para achar mão de obra, Comil encontra solução na contratação...

Com dificuldades para achar mão de obra, Comil encontra solução na contratação de imigrantes, a maioria venezuelanos


Intermediação foi feita por projetos sociais de inclusão oficiais e até mesmo viações procuram a fabricante

ADAMO BAZANI

Colaborou Vinícius de Oliveira

A fabricante de carrocerias de ônibus de Erechim (RS), Comil, é uma empresa de diversas línguas e etnias.

Não apenas por ser uma exportadora de veículos, já que entre 20% e 25% da produção de seus ônibus são para o mercado externo, mas porque passou a contar em sua linha com grande parte de imigrantes que chegaram ao Brasil em situação de risco, pobreza e vulnerabilidades de diversas ordens.

A empresa possui em seu quadro de funcionários, 2170 pessoas, das quais, 1600 diretamente na produção das carrocerias e componentes.

Deste total, 600 são imigrantes contratados com o auxílio de projetos sociais de inclusão oficiais. A maioria é formada por venezuelanos. Eles não vieram tirar emprego de brasileiros, porque havia vagas, mas não havia trabalhadores. E nem foi estratégia da empresa para ter “mão de obra barata”, já que os salários e direitos são os mesmos.

A gerente de Recursos Humanos da Comil Ônibus, Fernanda Parmeggiani, explicou ao criador e editor-chefe do Diário do Transporte que os resultados foram excelentes. Disposição, gratidão e maior tempo de permanência na empresa estão entre as principais características.

A gente faz um investimento bem importante em capacitação, para garantir a qualidade do nosso produto, a qualidade do nosso serviço. A gente treina eles em todas as operações, forma soldadores, forma pintores, operadores de máquina. Então eles requerem esse conhecimento, essa formação interna, mas com certeza, hoje eles nos entregam muito, são muito importantes para nós, nos permitiram o crescimento nos últimos anos e com certeza os crescimentos futuros também eles farão parte. – disse

Erechim é o terceiro maior polo industrial do Rio Grande do Sul. O nível salarial não é baixo. A população que pode se especializa. Para algumas funções, há uma escassez de trabalhadores.

O problema se agravou em 2020, em plena pandemia de covid-19.

A situação foi tão crítica que a Comil teve de remanejar cronogramas de entregas para não deixar de atender a todos os frotistas de ônibus, mas compatibilizar com a mão-de-obra escassa.

Mesmo quadro vivem os operadores de ônibus, que começaram a procurar a Comil sobre o programa que já rendeu à encarroçadora premiações e reconhecimentos nacionais e internacionais, inclusive, da ONU.

Inicialmente, a acolhida dos imigrantes se deu por meio da ADRA, uma associação ligada a Igreja Adventista.

Até 2023, vieram pequenos grupos.

Como os resultados estavam sendo satisfatórios, a Comil decidiu ampliar o projeto e buscou fontes oficiais: o Exército Brasileiro e s OIM -Organização Internacional de Imigração, um braço da ONU – Organização das Nações Unidas.

Foi a partir daí que começaram a vir grupos maiores.

A Comil destacou uma pessoa para ficar em Roraima, principal porta de entrada dos venezuelanos, para uma triagem inicial.

O objetivo foi trazer com responsabilidade quem tinha potencial e disposição.

Um dos conselhos de Fernanda é que empresas interessadas neste tipo de recrutamento busquem orientação dos órgãos oficiais.

Todos os trabalhadores que chegaram, a maior parte em uma condição de plena pobreza e sem mais o sentimento de pertencimento a uma pátria, foram capacitados não só para as funções em si, mas em relação a hábitos, convivência e cultura.

Mas não somente os imigrantes foram preparados, mas também os trabalhadores moradores de Erechim e municípios vizinhos.

Vencer a barreira do preconceito, despertando com a campanha de Acolhida o sentimento de empatia (se colocar no lugar, e se fosse com você) e mostrar que o diferente não separa, mas agrega, foram caminhos essenciais, segundo Fernanda.

Mas um fator foi observado ao longo da experiência.

Muitas pessoas que chegavam sem recursos, sem a noção do valor da moeda nacional e do real custo de vida e dos encargos que ser devedor no Brasil, acabaram perdendo o controle das finanças pessoais.

A Comil já desenvolvia um programa interno de cursos e palestras com este fim.

Diante desta realidade, os programas e ações voltados para orientar os trabalhadores em finanças pessoais e orçamentos domésticos foram ampliados.

“Não é que a pessoa seja descontrolada ou irresponsável. É o pertencimento de novo ao que é viver novamente, o que é desfrutar da vida novamente. Ter seus bens, suas conquistas, ajudar familiares que ficaram em suas terras. Nessa empolgação e até celebração, muitos podem perder a mão” – explicou o diretor da empresa, Tiago Zanette.

A empresa possui também um programa de capacitação interna e ascensão profissional.

Atualmente, 74% dos cargos de chefia, gerência e liderança são provenientes de promoções de funcionários que já atuavam na companhia.

Muito carentes de mão-de-obra de motoristas e pessoal de manutenção, os clientes da Comil, as empresas de ônibus, começaram a consultar a fabricante para entender como funcionam os programas de acolhimento e capacitação de imigrantes no mercado de trabalho.

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

ADAMO BAZANI: O Diário do Transporte está com a Gerente de Recursos Humanos da Comil Ônibus. Estamos em Erechim com Fernanda Parmeggiani, que vai contar para a gente um trabalho que é reconhecido internacionalmente, que a Comil desenvolveu com a acolhida de imigrantes. De cerca de 1.600 funcionários, aproximadamente, da linha de produção de ônibus, em torno de 600 são imigrantes, a maior parte venezuelanos. Primeiro, Fernanda, quais foram as barreiras a serem vencidas?

FERNANDA PARMEGGIANI: Primeiramente, quando pensamos no trabalho, em trazermos imigrantes aqui para contribuírem com a nossa força de trabalho local, regional, nós entendemos que a gente precisava buscar através de fontes oficiais em virtude da segurança. Então, a primeira barreira foi encontrar fontes oficiais junto com a ONU e com a Operação Acolhida, com o Exército Brasileiro, que faz toda a gestão da Operação Acolhida. A partir daí, nós começamos a trazer as primeiras famílias e trabalhar na inserção dessas famílias na comunidade, porque para o imigrante dar certo, ele contribuir com o desenvolvimento, ele ser uma força produtiva, ele também precisa estar bem, adaptado, ambientado. Então, esse é um ponto de atenção que a gente precisou ter no início do trabalho, como escola, saúde, moradia, estabelecendo as pessoas aqui na cidade, na região e, consequentemente, eles se tornando hoje uma boa parte da nossa força de trabalho.

ADAMO BAZANI: Foi necessário também capacitar e preparar o público interno, os futuros colegas desses trabalhadores?

FERNANDA PARMEGGIANI: Isso. Nós também trabalhamos campanhas sociais, fizemos uma campanha sobre a importância de acolher pessoas que estão vindo de fora, a questão da empatia, de me colocar no lugar da outra pessoa, também trabalhamos a valorização das diferenças, desde as diferenças de cultura, de hábitos, de alimentação, de música, de estilo de vida e, hoje, uma curiosidade, inclusive, a gente serve, eu estava contando para o Adamo antes, feijão doce, porque o imigrante, a nossa maior parte, venezuelanos, se alimenta do feijão doce. Então, respeitar e eles poderem realmente se sentir inseridos na comunidade. Então, a gente fez trabalhos com os gestores, treinamentos, sensibilizações, com os colegas, com as equipes, para ter esse acolhimento, esse apoio e o imigrante também poder se estabelecer aqui.

ADAMO BAZANI: Lembrando que esses trabalhadores foram trazidos aqui, capacitados aqui, não para ganhar menos, não para tirar o emprego, há uma escassez de mão de obra aqui, principalmente em Erechim, que é o terceiro maior polo industrial do Rio Grande do Sul. Muita gente tem esse preconceito, ‘vem aqui tirar emprego de brasileiro’. Na verdade, tinha emprego, mas não tinha pessoas para trabalhar.

FERNANDA PARMEGGIANI: A imigração, hoje, é vista como um grande potencial para o desenvolvimento econômico das regiões. Na essência, ela preenche lacunas de mão de obra. Aqui é muito mais que preencher uma lacuna, aqui se tem uma escassez de profissionais para trabalhar na indústria, na nossa região. Então, o imigrante veio nos ajudando, contribuindo com essa força de trabalho. A empresa entrando, então, com esse primeiro apoio dele para ele se estabelecer na cidade, na região e ele vindo com a sua força de trabalho, da sua família também, não tem só homens que vieram, vieram mulheres, hoje temos funcionárias também que vieram da Venezuela, que são imigrantes e estão trabalhando conosco.

ADAMO BAZANI: E qual foi a situação, a condição que esses trabalhadores chegaram, que essas pessoas chegaram aqui?

FERNANDA PARMEGGIANI: No primeiro mês, eles precisam de muito apoio, como eu estava falando anteriormente. Eles precisam de apoio na locação dos imóveis, apoio nessa hospedagem, até conseguirem locar um imóvel, na alimentação, na saúde, escola para os filhos. Então, todo esse suporte assistencial a empresa dá nesse primeiro mês. A partir daí, que ele já recebeu o seu primeiro salário, que ele já está estabelecido na cidade, ele segue como qualquer outro funcionário, mesmo pacote de benefícios, mesma remuneração, seguindo como qualquer outro integrante da nossa equipe, mas que teve esse apoio inicial na chegada, tudo novo. Extrema carência, vem de lá só com a roupa do corpo, precisando de apoio realmente para se estabelecer e isso é importante, porque se ele está com a vida básica construída e estabelecida, se ele tem apoio à saúde, apoio à alimentação, filhos na escola, com certeza ele vai se engajar mais e vai permanecer conosco e fazer um trabalho melhor.

ADAMO BAZANI: Fernanda, para a gente finalizar, há uma escassez de mão de obra no segmento de transportes como um todo, tanto das fabricantes, mas também dos operadores, valeu a pena?

FERNANDA PARMEGGIANI: Com certeza.

ADAMO BAZANI: E qual o recado?

FERNANDA PARMEGGIANI: Com certeza, hoje a retenção do nosso imigrante é maior que a retenção dos profissionais locais.

ADAMO BAZANI: Retenção é a pessoa não sair do emprego.

FERNANDA PARMEGGIANI: Não sair do emprego, eles ficam mais tempo conosco, numa contratação no mesmo período, então eles permanecem mais conosco. Claro que a gente faz um investimento bem importante em capacitação, para garantir a qualidade do nosso produto, a qualidade do nosso serviço. A gente treina eles em todas as operações, forma soldadores, forma pintores, operadores de máquina. Então eles requerem esse conhecimento, essa formação interna, mas com certeza, hoje eles nos entregam muito, são muito importantes para nós, nos permitiram o crescimento nos últimos anos e com certeza os crescimentos futuros também eles farão parte.

ADAMO BAZANI: E alguns já vieram profissionais dessa área, só foram as adaptações.

FERNANDA PARMEGGIANI: Isso, alguns já se tornaram lideranças, hoje já temos líderes que são imigrantes, venezuelanos, enfim, que vieram. Então eles fazem carreira, eles engrenam como qualquer outro funcionário.

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Colaborou Vinícius de Oliveira



Fonte

RELATED ARTICLES

Most Popular

Recent Comments