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o que está por trás do sistema de transporte público que Londres defende e sustenta


Entrevista especial com Matt Brown, diretor de Comunicação e Assuntos Corporativos da Transport for London (TfL), revela como a capital do Reino Unido construiu confiança no transporte e por que isso vai além da operação

ALEXANDRE PELEGI

Poucos sistemas de transporte público no mundo carregam o nível de respeito e até admiração que se observa em Londres. Não se trata apenas de eficiência ou cobertura, mas de algo mais profundo: o transporte coletivo faz parte da identidade da cidade. Está na forma como os londrinos se orientam, se expressam e se relacionam com o espaço urbano.

Para quem vem de fora, essa percepção é ainda mais evidente. O metrô, os ônibus, o DLR (um metrô leve), a integração entre modos, a clareza das informações e a previsibilidade do sistema formam uma experiência que vai além do deslocamento e que gera confiança.

Foi essa combinação de operação, identidade e credibilidade que motivou o Diário do Transporte e o Podcast do Transporte a marcar uma entrevista com Matt Brown, diretor de Comunicação e Assuntos Corporativos da Transport for London (TfL), empresa pública que gere o transporte e o trânsito da cidade.

O dia 01 de abril

Tudo começou às 14h de um dia típico londrino com céu fechado, frio cortante e um vento que atravessava qualquer tentativa de proteção. No dia primeiro de abril, quarta-feira passada, deixei a estação Southwark — nome que poucos estrangeiros conseguem pronunciar corretamente — e atravessei a rua ao lado do jornalista Lúcio Mesquita em direção ao edifício Palestra, sede da TfL.

Em uma conversa direta, sem formalidades e com mais de uma hora de duração, Matt Brown detalhou como Londres construiu um sistema que vai além da operação.

A entrevista contou ainda com a participação remota do vice-presidente da ANTP, Cláudio de Senna Frederico, cuja intervenção, mesmo através de uma pergunta gravada, levou o debate a uma camada mais estrutural.

Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:


Diário do Transporte e Podcastdo Transporte- O que fez Londres deixar de ser apenas operadora para se tornar referência global?

Matt Brown – “Durante muito tempo, o transporte era visto essencialmente como operação — fazer trens e ônibus funcionarem. O que mudou foi a forma de pensar: passamos a colocar o passageiro no centro de tudo. Isso significa olhar para a experiência completa, desde o momento em que a pessoa decide viajar até a forma como ela se sente ao longo do trajeto. Cada viagem importa porque cada interação com o sistema molda a relação das pessoas com a cidade.”

Diário do Transporte e Podcast do Transporte- O transporte público ainda carrega orgulho ou virou apenas um serviço funcional?

Matt Brown – “A relação é de amor e ódio. Existe um orgulho muito forte dos londrinos pelo sistema, pela sua história e pelo papel que ele desempenha na cidade. Ao mesmo tempo, quando algo não funciona ou quando as pessoas sentem que o custo está elevado, a reação é imediata e bastante intensa. Isso não é negativo — pelo contrário, mostra que o transporte realmente importa para a vida das pessoas e que elas têm uma expectativa alta em relação ao que entregamos.”

Claudio de Senna Frederico, vice-presidente da ANTP

Diário do Transporte e Podcast do Transporte – [Aqui entrou Cláudio de Senna Frederico, com uma pergunta em vídeo] – Há um valor emocional no transporte público que rivaliza com o automóvel?

Matt Brown – “Sim, há um valor emocional real. Esse vínculo está muito ligado ao legado que conseguimos preservar e atualizar ao longo do tempo. Em Londres, o transporte sempre teve uma dimensão cultural importante. A arte, o design das estações, a identidade visual, tudo isso faz com que o sistema não seja apenas funcional, mas parte da identidade da cidade. (…) O automóvel oferece outro tipo de apelo, mais associado à liberdade individual. Sempre haverá pessoas que preferem um carro, claro. Mas também há muitas que preferem o transporte público, e o nosso papel é garantir que essa escolha continue sendo não apenas racional, mas também desejável.”

Diário do Transporte – O que sustenta a confiança do passageiro no dia a dia?

Matt Brown – “Segurança é absolutamente central. Em todas as reuniões começamos perguntando se há alguma questão relacionada à segurança, porque sem isso não existe confiança. E estamos falando de segurança em um sentido amplo — não apenas operacional, mas também social, incluindo temas como violência contra mulheres, crimes de ódio e a percepção de proteção dentro do sistema. Outro ponto essencial é a confiança na tarifa. O passageiro precisa ter clareza de que está pagando o valor correto. Com o modelo de capping, ele não precisa se preocupar em calcular nada. O sistema garante automaticamente que ele pague o menor valor possível.”

Diário e Podcast do Transporte – O “capping” faz com que o sistema tarifário ofereça ao passageiro um limite máximo diário ou semana gasto com o transporte público. Ao atingir esse teto, as viagens adicionais não são cobradas. E isso é muito interessante, mas nos leva a perguntar: um sistema como o de Londres pode se sustentar apenas com tarifa?

Matt Brown – “Não existe, em nenhum lugar do mundo, um sistema desse porte que se sustente exclusivamente com receita tarifária. Se você quer oferecer um serviço abrangente, inclusivo e de qualidade, o investimento público é inevitável. Essa é uma característica estrutural de sistemas complexos como o de Londres.”

Diário do Transporte e PodcastdoTransporte- Como o uso de dados e inteligência artificial está mudando o sistema?

Matt Brown – “Durante muito tempo, sabíamos apenas que alguém se deslocava de um ponto a outro. Hoje conseguimos entender como essa viagem acontece, quais escolhas são feitas ao longo do caminho, como as pessoas combinam diferentes modos de transporte. Isso transforma completamente a forma de planejar. (…) Com o avanço da inteligência artificial, estamos começando a prever problemas antes que eles ocorram. Isso nos permite agir de forma mais proativa, melhorar a operação e oferecer uma experiência mais estável para o passageiro.”

Diário do Transporte e Podcast do Transporte- Londres adotou duas decisões impopulares: a ULEZ, que é a Zona de Baixas Emissões e que cobra uma taxa dos motoristas de veículos mais poluentes para circular em determinadas áreas, e que tem como objetivo reduzir a poluição. A outra medida é o que é o pedágio urbano, que cobra pela circulação de veículos em áreas centrais congestionadas, como forma de reduzir tráfego e financiar o transporte público. Mas como sustentar decisões impopulares como esse pedágio urbano e a ULEZ?

Matt Brown – “Essas decisões são sempre desafiadoras. Há resistência, há oposição, e já enfrentamos momentos difíceis, inclusive com vandalismo. Mas, quando você entende que a medida é necessária para o funcionamento da cidade, precisa manter a posição. Isso exige coragem e consistência ao longo do tempo. Não é possível recuar diante de cada pressão. E, no fim das contas, a cidade continua funcionando. Londres não acabou por causa dessas medidas.”

Diário do Transporte e Podcast do Transporte- O sistema precisa se adaptar ao novo comportamento das pessoas?

Matt Brown – “Sem dúvida. Os padrões de deslocamento mudaram. Mais pessoas trabalham de casa, há maior acesso a alternativas individuais, e isso altera a forma como o transporte público é utilizado. O nosso papel não é resistir a essas mudanças, mas responder a elas. Precisamos adaptar a rede às viagens reais das pessoas, e não a um modelo antigo de deslocamento.”

Diário do Transporte e Podcast – E aí entra o Superloop, a rede de ônibus expressos de Londres que conecta áreas periféricas diretamente, sem passar pelo centro, reduzindo tempo de viagem e ampliando a conectividade, certo?

“O Superloop é um bom exemplo disso, porque conecta áreas que antes não estavam bem atendidas sem depender do centro, e por isso tem tido uma resposta muito positiva.”

Diário do Transporte e Podcast do Transporte- Até onde vai o limite da gratuidade e dos subsídios?

“Hoje, cerca de 40% dos passageiros de ônibus já viajam gratuitamente ou com algum tipo de desconto. Isso demonstra o papel social do sistema (…) mas, ao mesmo tempo, não é possível retirar investimento. Sem financiamento adequado, todo o equilíbrio do sistema fica comprometido. (…) No fim, trata-se de colocar os passageiros, a cidade e o país no centro das decisões.”


Entre o discurso e a prática: o que Londres realmente ensina

A entrevista não revelou uma fórmula inédita.

E esse é, talvez, o ponto mais relevante.

Porque o que Londres apresenta não é inovação isolada, nem tecnologia disruptiva.

É coerência.

O que aparece com clareza é a combinação de elementos que já conhecemos — financiamento público, uso intensivo de dados, decisões regulatórias firmes — mas aplicados de forma contínua, ao longo do tempo, sem rupturas.

O verdadeiro destaque está em outra camada.

Londres trata o transporte como parte da construção da cidade — não apenas como serviço, mas como experiência, linguagem e identidade.

E isso explica por que decisões difíceis conseguem ser sustentadas.

Mas também mostra um limite importante.

Esse modelo não se copia.

Porque não depende apenas de técnica ou tecnologia.

Depende de contexto, de estabilidade institucional e, sobretudo, de confiança construída ao longo de décadas.

Londres não é referência apenas porque seu transporte funciona.

É porque ele faz sentido.

E isso — mais do que qualquer solução específica — é o que ainda falta construir em grande parte do mundo.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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