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avanço do discurso de inovação contrasta com modelo ainda em construção, avalia especialista


Ilo Löbel da Luz aponta que, diante da pressão por crescimento, empresas antecipam a narrativa de tecnologia e eficiência, enquanto a estrutura operacional e o enquadramento regulatório ainda não acompanham no mesmo ritmo — gerando assimetrias competitivas, insegurança jurídica e desafios para a sustentabilidade do setor

ALEXANDRE PELEGI

A pressão por crescimento, em mercados cada vez mais disputados, tem levado empresas a reposicionarem seus discursos com velocidade crescente. Em alguns casos, a transformação do modelo acompanha essa mudança. Em outros, a narrativa parece avançar antes da execução.

No transporte rodoviário interestadual de passageiros, esse movimento começa a ganhar contornos mais claros. Termos como tecnologia, eficiência e disrupção passam a ocupar o centro da comunicação — mesmo quando os fundamentos operacionais ainda estão em processo de construção.

Para entender esse cenário, o advogado e especialista em regulação do transporte, Ilo Löbel da Luz, analisa os riscos e as oportunidades desse descompasso entre discurso e modelo.

Segundo ele, não se trata de negar a inovação, mas de compreender os limites e as condições específicas de um setor em que a regulação estrutura o próprio mercado. Ele observa que estamos vendo um fenômeno que não é exclusivo do transporte, “mas que aqui ganha um peso maior. Quando o modelo entra sob pressão, a primeira reação muitas vezes é mudar a narrativa. Isso não é, por si só, um problema. O problema é quando essa narrativa passa a substituir a construção real do modelo.”

Ilo observa que, no ambiente atual, conceitos amplos acabam sendo utilizados de forma estratégica: “Intermediação vira tecnologia. Flexibilidade vira eficiência. E aquilo que ainda está em desenvolvimento passa a ser apresentado como se já estivesse consolidado. Isso ajuda a ganhar tempo, a atrair atenção, até investimento. Mas não resolve o essencial.”

Na avaliação do especialista, o transporte impõe um tipo de disciplina que outros setores conseguem contornar com mais facilidade.

“Diferente de outras áreas, aqui não existe muito espaço para atalhos. A regulação define o jogo. Ela estabelece quem pode operar, em que condições, com quais obrigações. Ignorar isso pode até gerar crescimento no curto prazo, mas tende a trazer, depois, conflito, insegurança jurídica e necessidade de ajuste.”

Ele ressalta que esse descompasso não é neutro para quem está na ponta, e observa que “para quem opera, o impacto é direto. Surge uma concorrência assimétrica, com regras diferentes sendo aplicadas para modelos que disputam o mesmo mercado. Isso pressiona margens, dificulta planejamento e aumenta o nível de incerteza.

Ao mesmo tempo, Ilo vê nesse cenário uma oportunidade relevante — justamente para quem consegue estruturar melhor seu posicionamento. E engata: “As empresas que conseguem alinhar inovação com conformidade regulatória constroem uma vantagem importante. Elas ganham consistência. Conseguem crescer com mais previsibilidade. E, principalmente, reduzem o risco de precisar fazer correções abruptas lá na frente.”

Na visão dele, o mercado tende a fazer essa distinção com relativa rapidez. “No fim, o mercado separa quem tem modelo de quem tem discurso. E, no transporte, essa diferença aparece de forma muito concreta. Não é só uma questão de valuation. É operação, é segurança, é capacidade de continuar rodando.”

Para Ilo Löbel da Luz, o setor vive um momento de escolha estratégica. “Existe um caminho que aposta na narrativa como motor principal de crescimento. E existe outro que passa pela construção de um modelo sólido, que respeita as regras do jogo e se sustenta no tempo. Pode ser um caminho mais lento no início, mas é o que, de fato, permanece”, diz o especialista.

Ele conclui com uma síntese que ajuda a entender o momento atual do setor.

No transporte, não adianta parecer que funciona. Tem que funcionar de verdade. Porque, no fim do dia, não é só o investidor que avalia. É o passageiro, é o regulador, é a própria operação que testa esse modelo todos os dias.”

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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