Publicado em: 18 de maio de 2026

Custo de mão de obra pode aumentar em 33% de acordo com entidade que ainda prevê que motoristas de ônibus vão trabalhar mais na Uber e 99
ADAMO BAZANI
As empresas de ônibus urbanos e metropolitanos, reunidas na NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), divulgaram nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, um posicionamento oficial sobre a redução na jornada de trabalho com o fim da escala 6 x 1.
Segundo as viações, no documento, a medida pode resultar em tarifas mais altas por causa do aumento dos custos com mão-de-obra, que deve ser em torno de 33%. – VEJA MAIS ABAIXO O DOCUMENTO NA ÍNTEGRA
O presidente da Comissão que analisa a proposta que é uma das principais bandeiras do presidente Luís Inácio Lula da Silva, o deputado federal Alencar Santana (PT-SP), acredita que nesta semana, até quarta-feira (20), uma primeira versão do texto já esteja aprovada pela comissão.
De acordo com pesquisa da Genial/Quaest divulgada nesta segunda-feira (18), 68% dos brasileiros aprovam o fim da jornada 6 x 1. Ao todo, 2.004 eleitores de 16 anos ou mais foram entrevistados sobre o assunto. Em julho de 2025, a aprovação era de 69% e, em dezembro de 2025, estava em seu maior patamar nas última três edições: 72%
Centrais sindicais ligadas aos trabalhadores de transportes apoiam a redução da jornada e dizem que, ao contrário do que os empresários alegam, não vai elevar a crise da falta de mão de obra no setor.
O presidente da CNTTL – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística, Paulo João Estausia, em comunicado da entidade, acredita que o fim da escala 6 x1 pode gerar 4,5 mil empregos
“Além da abertura de vagas em si, reduzir a carga sem reduzir os salários, vai melhorar os ganhos e impactar positivamente na vida do trabalhador em transportes, tornando a profissão mais interessante. Hoje as altas jornadas, os baixos salários e as rotinas estafantes estão entre os motivos que justificam essa falta de mão de obra alegada pelos empresários” – disse.
A NTU, por sua vez, sustenta que além da falta de mão-de-obra; o setor vai enfrentar outra questão: para complementar renda, muitos motoristas de ônibus vão trabalhar mais tempo com aplicativos de carros particulares como 99 e Uber, o que já acontece e seria agravado, podendo resultar em profissionais mais cansados na hora der assumir a direção dos coletivos, ampliando o risco de acidentes e mau atendimento aos passageiros.
O presidente-executivo da NTU, Francisco Christovam, diz que não é possível igualar as regras para todos setores, sendo que cada um tem realidades muito específicas, como os transportes
“O transporte público já enfrenta um cenário extremamente delicado, marcado pela escassez de profissionais, aumento de custos operacionais e necessidade crescente de subsídios. Uma mudança dessa magnitude, sem transição adequada e sem considerar as características específicas do setor, tende a comprometer a sustentabilidade dos sistemas e penalizar justamente quem mais depende do serviço”, afirmou
A advogada especializada em risco empresarial, Liana Variani, disse que empresas e trabalhadores devem neste “início da reta final no Congresso” acompanhar cada vez mais de perto a tramitação da proposta.
“Há direitos fundamentais em que simplesmente o negociado não é considerado acima do legislado. Realmente, cada setor tem uma realidade diferente. Para algumas atividades, na prática, já não existem jornadas de 44 horas semanais, mas em outros, em especial as de funcionamento ininterrupto, qualquer alteração vai afetar e muito a realidade de trabalhadores e empregadores. Apesar de posições opostas, o consenso dos debates é um caminho interessante” – disse
Veja a nota oficial da NTU divulgada nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026.
Redução da jornada pode comprometer o transporte público e pressionar tarifas
Entidade afirma que o fim da escala 6×1 e a diminuição da carga horária semanal podem elevar custos com motoristas em até 33% e agravar a crise de mão de obra no setor
Brasília, maio de 2026 – A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) manifesta preocupação com as propostas de extinção da escala de trabalho 6×1 e de redução da jornada semanal de 44 horas para 36 ou 40 horas, em análise no Congresso. Para a entidade, a medida pode gerar efeitos negativos em cadeia sobre toda a estrutura do transporte público coletivo urbano, um serviço essencial que opera de forma contínua e depende fortemente de mão de obra qualificada.
Responsável por garantir o deslocamento diário de milhões de brasileiros e viabilizar o funcionamento de atividades fundamentais, como saúde, educação e comércio, o transporte coletivo urbano funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Nesse contexto, a NTU avalia que alterações bruscas na jornada de trabalho, sem planejamento gradual e sem mecanismos de compensação de produtividade, podem gerar um cenário de “perde-perde” para empresas, trabalhadores, passageiros e poder público.
“O transporte público já enfrenta um cenário extremamente delicado, marcado pela escassez de profissionais, aumento de custos operacionais e necessidade crescente de subsídios. Uma mudança dessa magnitude, sem transição adequada e sem considerar as características específicas do setor, tende a comprometer a sustentabilidade dos sistemas e penalizar justamente quem mais depende do serviço”, afirma Francisco Christovam.
Segundo simulações analisadas pela entidade, a redução da jornada semanal para 36 horas poderá elevar os custos relacionados aos motoristas em até 33%. Mesmo uma redução para 40 horas já produziria impactos relevantes, estimados em cerca de 15%. A mão-de-obra representa 43,1% do custo total do serviço de transporte público coletivo urbano.
A NTU destaca ainda que o setor já convive com um grave déficit de profissionais qualificados. Atualmente, mais da metade das empresas operadoras relata dificuldades para contratar motoristas, enquanto a escassez de mecânicos afeta diretamente a manutenção das frotas e a regularidade das operações. Na avaliação da entidade, exigir ampliação imediata das equipes, em um mercado já desabastecido de trabalhadores qualificados, pode comprometer a oferta do serviço e aumentar a pressão financeira sobre os sistemas.
Do ponto de vista dos trabalhadores, a entidade alerta que a redução da jornada pode produzir efeitos contrários aos pretendidos. A adequação às novas escalas de trabalho resultaria em diminuição das horas extras trabalhadas, por exemplo, resultando em perda de renda real para muitos rodoviários. Em outras áreas, o fim da jornada 6 X 1 pode estimular a adoção de modelos mais precários de contratação, como a informalidade e a pejotização, reduzindo garantias trabalhistas e proteção social.
A mudança incentivaria os rodoviários a exercerem atividades complementares, além da jornada de trabalho no transporte público, para compensar a futura perda de renda. Parcela significativa dos rodoviários poderia passar a atuar como motoristas de serviços de transporte por aplicativos, por exemplo, nos horários de folga; isso resultaria em um excesso de horas trabalhadas e fadiga dos profissionais, o que colocaria em risco a segurança dos passageiros do transporte coletivo.
Para os passageiros, o impacto tende a ser sentido diretamente no bolso. Como o financiamento do transporte público urbano ainda depende majoritariamente da arrecadação tarifária, o aumento dos custos operacionais inevitavelmente pressionará o valor das passagens. Já para estados e municípios, a alternativa para evitar reajustes elevados seria ampliar os subsídios públicos, onerando ainda mais os orçamentos públicos já comprometidos com outras demandas sociais.
A NTU defende que qualquer mudança nas regras de jornada seja conduzida de forma gradual e construída por meio da negociação coletiva entre patrões e empregados, considerando as particularidades operacionais de cada região ou empresa. Para a entidade, esse é o caminho mais seguro para equilibrar a valorização dos trabalhadores, a sustentabilidade econômica das operações e a continuidade da prestação do serviço à população.
“É fundamental que esse debate considere a realidade operacional do transporte coletivo brasileiro. Estamos falando de um serviço essencial, previsto como direito social na Constituição, e que não pode ter sua sustentabilidade ameaçada por medidas desconectadas da dinâmica do setor”, reforça Francisco Christovam.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


