O México entra em campo contra Portugal neste sábado (28), às 22h (de Brasília), em amistoso que marca a reinauguração do Estádio Azteca e serve de teste para a Copa do Mundo de 2026. Além da presença de Guillermo Ochoa, se existe algo que sempre é associado a El Tri nos últimos anos são os belíssimos uniformes da equipe – sejam no tradicional verde ou em cores alternativas.
Mas quem vê o sucesso dos uniformes do México talvez nem imagine que a seleção passou por uma situação muito similar à do Brasil: um design de camiseta polêmico – porém adorado por alguns – foi proibido e agora se tornou item de desejo de colecionadores de raridades, algo similar ao que aconteceu com o modelo vermelho da equipe canarinho.
Tudo começou em 1998, quando a seleção mexicana se preparava para jogar a Copa das Confederações no ano seguinte. A marca nacional Garcis – encarregada pelo design do uniforme que seria usado na competição – teve uma ideia ousada: ostentar o Escudo Nacional do país como estampa na frente da camiseta. Só que fazer isso não seria tão fácil.
Então, José Antonio García, dono da marca, solicitou a permissão de Francisco Labastida Ochoa, então Secretário de Governo, para utilizar a icônica imagem da águia devorando uma serpente em seus uniformes.
“Eu sempre via que na Inglaterra e nos Estados Unidos há canecas, camisetas e até cuecas com a bandeira do país. Pensei em fazer um uniforme com identidade, que nos desse orgulho. Me ocorreu então de colocar o Escudo Nacional na estampa. Fui ao Ministério do Interior e ele me autorizou a fazer a camisa. Então, comecei a fabricá-la”, lembra José Antonio García, proprietário da marca Garcis, em entrevista exclusiva à ESPN.
A camisa, inclusive, seria usada no que viria a ser um dos títulos mais importantes da história do país no futebol: a seleção mexicana derrotaria o Brasil na final e se tornaria campeã da Copa das Confederações de 1999.
“São fabricadas mais de 60 mil peças e a nova camiseta da Seleção Mexicana é anunciada nos jornais. Então, o Congresso da União, deputados e senadores disseram que era proibido pela Constituição comercializar o Escudo Nacional e o uniforme foi removido de circulação”, lembra José.
Atualmente, a Adidas teve que pagar 40 mil pesos mexicanos (R$ 11,7 mil) para poder usar um design inspirado na “Piedra del Sol” – um monolito asteca – na camisa que o México usará na Copa do Mundo de 2026. Em 1998, Garcis não pagou nada para estampar o Escudo Nacional em suas camisetas, mesmo antes de vendê-las.
“Não me cobraram nada, foi uma autorização, porque não existiam as regulamentações do INAH (Instituto Nacional de Antropologia e História, em português), como as de agora.”
O que aconteceu com as 60 mil camisetas proibidas da Seleção Mexicana?
De acordo com a “Lei do Escudo, Bandeira e Hinos Nacionais”, promulgada no sexênio de Miguel de la Madrid como presidente do país (1982 a 1988), nenhum dos símbolos patrióticos pode ser utilizado sem autorização oficial. Por isso, o Congresso da União invalidou a carta da Secretaria de Governo e freou a produção da camiseta com o Escudo Nacional.
“Foi de 98 a 99 que saiu a proibição, porque saiu nos jornais que não se podia utilizar (o Escudo Nacional). E, a partir daí, todo mundo quer a camiseta, porque o proibido se torna desejo. Então, eu mandei para os Estados Unidos toda a produção que eu tinha. Ainda tenho algumas por aí. Acabei de encontrar uma pessoa em Acapulco com o uniforme já todo desbotado, com o símbolo e tudo”, lembra José.
“Nos Estados Unidos há muitas camisetas (desse modelo), porque todas as que eu tinha eu tive que mandar para lá. Quando me deram a autorização por parte do governo, não demorou nem oito dias para eu receber a próxima carta que me obrigava a parar a produção. Naquela época, foram feitas 60 mil camisetas. No mercado nacional foram vendidas cinco mil e nos EUA foram o resto, porque (a camiseta) era uma febre por lá, já que meus conterrâneos sempre têm saudades do México”, indicou o empresário.
Camiseta proibida: da Copa das Confederações ao Maluma
Em agosto de 2025, Maluma performou a canção “Hawaii” na Cidade do México, em Guadalajara e em Monterrey, com uma peculiaridade: o cantor colombiano apareceu em todos os seus shows com a camiseta que de fato levou a Seleção Mexicana ao título da Copa das Confederações de 1999 – substituindo o polêmico uniforme proibido.
A camiseta alternativa que de fato chegou aos campos em 99 usava o antigo escudo da Federação Mexicana de Futebol (FMF) como estampa no lugar do Escudo Nacional, em um design que finalmente seria aprovado para a Copa das Confederações.
“Eu teria apresentado (o novo modelo) já na própria Copa das Confederações, não antes, para que não a proibissem”, diz José Antonio García entre risadas.
“A outra não pôde ser usada em um jogo sequer, mas ainda é vendida em todo canto como a ‘camisa proibida da Seleção Mexicana'”, finaliza.


