Publicado em: 1 de janeiro de 2026

Entidade com quase 50 anos de atuação em defesa do transporte coletivo vê avanços pontuais, mas cobra marco legal, coordenação nacional e políticas estruturantes para além do discurso eleitoral
ALEXANDRE PELEGI
A Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), entidade com quase cinco décadas de atuação na defesa do transporte coletivo no Brasil, avalia o cenário de 2026 com cautela e faz um alerta claro ao poder público: o setor entra em um ano eleitoral marcado por pressões fiscais, juros elevados e risco de soluções populistas dissociadas da realidade técnica, financeira e institucional da mobilidade urbana.
Ao analisar o contexto político, econômico e regulatório do país, a ANTP reconhece avanços recentes, mas reforça que não há espaço para euforia. Para a entidade, o transporte público brasileiro só avança quando há planejamento de longo prazo, debate qualificado e decisões baseadas em dados — e não em improvisações administrativas ou promessas de curto alcance.
Mais do que uma entidade representativa, a ANTP atua como um espaço permanente de convergência entre especialistas, operadores, indústria, academia e poder público. Nesse ambiente, o transporte coletivo é tratado como política pública essencial, e não como resposta emergencial a crises pontuais. A entidade reconhece esforços recentes de órgãos federais, estaduais e municipais, ainda que de forma desigual, fragmentada e, muitas vezes, sem coordenação nacional.
Segundo conselheiros e associados da ANTP, o diagnóstico para 2026 é direto: haverá intensificação do debate público, muitas promessas e pouco espaço fiscal para erros. O risco, já conhecido pelo setor, é a repetição de um padrão histórico — discursos ambiciosos sem projetos estruturados, fontes de financiamento definidas ou capacidade de execução.
Marco legal segue como principal gargalo
No campo regulatório, a ANTP aponta como preocupação central a ausência de avanço no marco legal do transporte público. A falta de regras claras e estabilidade institucional mantém contratos fragilizados, dificulta o planejamento de longo prazo e amplia a insegurança jurídica para operadores e gestores públicos.
Nesse ambiente, a entidade vê com preocupação a banalização do debate sobre tarifa zero, frequentemente apresentada sem estudos técnicos, fontes sustentáveis de financiamento ou avaliação de impactos sobre o equilíbrio do sistema. Para a ANTP, soluções simplificadas podem gerar efeitos colaterais graves no médio e longo prazo.
Transição energética avança, mas sem política nacional
Do ponto de vista tecnológico, o cenário é mais dinâmico. A descarbonização do transporte coletivo avança, especialmente nas grandes cidades, com a incorporação de ônibus elétricos, uso de biometano e a entrada gradual de combustíveis em fase de maturação, como o HVO e soluções híbridas.
A ANTP, no entanto, reforça um alerta recorrente: tecnologia sem estratégia tende a virar modismo. A transição energética exige planejamento, infraestrutura adequada, regulação consistente e escala. Sem uma política nacional clara de descarbonização do transporte coletivo, o mercado acaba se organizando por conta própria, enquanto o poder público frequentemente chega atrasado ao debate.
Segurança viária e mototáxi seguem como pontos sensíveis
Outro tema sensível destacado pela entidade é a segurança viária. A ANTP avalia que, apesar de avanços pontuais, o país segue falhando na redução das mortes no trânsito, especialmente aquelas envolvendo motocicletas. Dada a complexidade do problema, a entidade defende a atuação coordenada dos três entes federativos, com políticas integradas de fiscalização, engenharia viária, educação e regulação.
Nesse contexto, a ANTP mantém sua posição histórica contrária à adoção do mototáxi nas cidades. Caso decisões judiciais imponham a regulamentação do serviço, a entidade defende critérios rigorosos, com definição clara do modo de operação, das responsabilidades das plataformas digitais e das obrigações das empresas de aplicativo. Sem isso, o risco é a transformação da atividade em uma ação predatória sobre o transporte público, com impacto direto na segurança viária e no equilíbrio do sistema.
Renovação de frota não basta sem infraestrutura
A indústria de ônibus entra em 2026 com postura cautelosa. A produção segue relativamente estável, o crescimento é limitado e a dependência de exportações permanece elevada. Ao mesmo tempo, o setor convive com entraves como juros altos, crédito caro e um déficit de frota acumulado desde a pandemia.
Para a ANTP, renovar frota, isoladamente, não resolve os problemas estruturais do transporte coletivo. Sem corredores exclusivos, faixas dedicadas, terminais adequados e integração metropolitana, o ônibus perde competitividade. O usuário, destaca a entidade, decide com base em tempo, conforto e previsibilidade — e abandona o sistema quando essas condições não são entregues.
Política nacional de mobilidade é apontada como caminho
Diante desse cenário, uma das principais mensagens da ANTP para 2026 é a defesa de uma política nacional de mobilidade urbana, nos moldes do que já existe em áreas como saúde e educação. Um modelo que envolva União, estados e municípios, com financiamento estruturado, planejamento contínuo e responsabilidades compartilhadas.
A entidade avalia que o transporte público estará presente nos discursos eleitorais ao longo de 2026, o que considera positivo. O alerta, porém, é claro: discurso sem projeto custa caro. Tarifa zero sem estudo, frota limpa sem infraestrutura, tecnologia sem regulação e promessas sem orçamento são atalhos que cobram pedágio depois.
Ao reforçar esse diagnóstico, a ANTP reafirma seu papel histórico de defender o transporte coletivo como política de transformação social de longo prazo. Segundo a entidade, o conhecimento técnico existe e as vozes qualificadas estão disponíveis. O desafio será saber se o país, em 2026, estará disposto a ouvir quem pensa o transporte público para além da próxima eleição.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


