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Ano de 2026 acende alerta para riscos de soluções populistas no transporte público, diz ANTP


A descarbonização do transporte coletivo avançou em 2025, especialmente nas grandes cidades

Entidade com quase 50 anos de atuação em defesa do transporte coletivo vê avanços pontuais, mas cobra marco legal, coordenação nacional e políticas estruturantes para além do discurso eleitoral

ALEXANDRE PELEGI

A Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), entidade com quase cinco décadas de atuação na defesa do transporte coletivo no Brasil, avalia o cenário de 2026 com cautela e faz um alerta claro ao poder público: o setor entra em um ano eleitoral marcado por pressões fiscais, juros elevados e risco de soluções populistas dissociadas da realidade técnica, financeira e institucional da mobilidade urbana.

Ao analisar o contexto político, econômico e regulatório do país, a ANTP reconhece avanços recentes, mas reforça que não há espaço para euforia. Para a entidade, o transporte público brasileiro só avança quando há planejamento de longo prazo, debate qualificado e decisões baseadas em dados — e não em improvisações administrativas ou promessas de curto alcance.

Mais do que uma entidade representativa, a ANTP atua como um espaço permanente de convergência entre especialistas, operadores, indústria, academia e poder público. Nesse ambiente, o transporte coletivo é tratado como política pública essencial, e não como resposta emergencial a crises pontuais. A entidade reconhece esforços recentes de órgãos federais, estaduais e municipais, ainda que de forma desigual, fragmentada e, muitas vezes, sem coordenação nacional.

Segundo conselheiros e associados da ANTP, o diagnóstico para 2026 é direto: haverá intensificação do debate público, muitas promessas e pouco espaço fiscal para erros. O risco, já conhecido pelo setor, é a repetição de um padrão histórico — discursos ambiciosos sem projetos estruturados, fontes de financiamento definidas ou capacidade de execução.

Marco legal segue como principal gargalo

No campo regulatório, a ANTP aponta como preocupação central a ausência de avanço no marco legal do transporte público. A falta de regras claras e estabilidade institucional mantém contratos fragilizados, dificulta o planejamento de longo prazo e amplia a insegurança jurídica para operadores e gestores públicos.

Nesse ambiente, a entidade vê com preocupação a banalização do debate sobre tarifa zero, frequentemente apresentada sem estudos técnicos, fontes sustentáveis de financiamento ou avaliação de impactos sobre o equilíbrio do sistema. Para a ANTP, soluções simplificadas podem gerar efeitos colaterais graves no médio e longo prazo.

Transição energética avança, mas sem política nacional

Do ponto de vista tecnológico, o cenário é mais dinâmico. A descarbonização do transporte coletivo avança, especialmente nas grandes cidades, com a incorporação de ônibus elétricos, uso de biometano e a entrada gradual de combustíveis em fase de maturação, como o HVO e soluções híbridas.

A ANTP, no entanto, reforça um alerta recorrente: tecnologia sem estratégia tende a virar modismo. A transição energética exige planejamento, infraestrutura adequada, regulação consistente e escala. Sem uma política nacional clara de descarbonização do transporte coletivo, o mercado acaba se organizando por conta própria, enquanto o poder público frequentemente chega atrasado ao debate.

Segurança viária e mototáxi seguem como pontos sensíveis

Outro tema sensível destacado pela entidade é a segurança viária. A ANTP avalia que, apesar de avanços pontuais, o país segue falhando na redução das mortes no trânsito, especialmente aquelas envolvendo motocicletas. Dada a complexidade do problema, a entidade defende a atuação coordenada dos três entes federativos, com políticas integradas de fiscalização, engenharia viária, educação e regulação.

Nesse contexto, a ANTP mantém sua posição histórica contrária à adoção do mototáxi nas cidades. Caso decisões judiciais imponham a regulamentação do serviço, a entidade defende critérios rigorosos, com definição clara do modo de operação, das responsabilidades das plataformas digitais e das obrigações das empresas de aplicativo. Sem isso, o risco é a transformação da atividade em uma ação predatória sobre o transporte público, com impacto direto na segurança viária e no equilíbrio do sistema.

Renovação de frota não basta sem infraestrutura

A indústria de ônibus entra em 2026 com postura cautelosa. A produção segue relativamente estável, o crescimento é limitado e a dependência de exportações permanece elevada. Ao mesmo tempo, o setor convive com entraves como juros altos, crédito caro e um déficit de frota acumulado desde a pandemia.

Para a ANTP, renovar frota, isoladamente, não resolve os problemas estruturais do transporte coletivo. Sem corredores exclusivos, faixas dedicadas, terminais adequados e integração metropolitana, o ônibus perde competitividade. O usuário, destaca a entidade, decide com base em tempo, conforto e previsibilidade — e abandona o sistema quando essas condições não são entregues.

Política nacional de mobilidade é apontada como caminho

Diante desse cenário, uma das principais mensagens da ANTP para 2026 é a defesa de uma política nacional de mobilidade urbana, nos moldes do que já existe em áreas como saúde e educação. Um modelo que envolva União, estados e municípios, com financiamento estruturado, planejamento contínuo e responsabilidades compartilhadas.

A entidade avalia que o transporte público estará presente nos discursos eleitorais ao longo de 2026, o que considera positivo. O alerta, porém, é claro: discurso sem projeto custa caro. Tarifa zero sem estudo, frota limpa sem infraestrutura, tecnologia sem regulação e promessas sem orçamento são atalhos que cobram pedágio depois.

Ao reforçar esse diagnóstico, a ANTP reafirma seu papel histórico de defender o transporte coletivo como política de transformação social de longo prazo. Segundo a entidade, o conhecimento técnico existe e as vozes qualificadas estão disponíveis. O desafio será saber se o país, em 2026, estará disposto a ouvir quem pensa o transporte público para além da próxima eleição.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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