Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Rio Ferdinand, Ryan Giggs… Era difícil olhar para o elenco do Manchester United no início do século e não reconhecer a maioria dos jogadores. Sob o comando do lendário Alex Ferguson, o gigante inglês viveu uma verdadeira “era de ouro” que ultrapassou as barreiras da Inglaterra e da Europa para ser considerado um dos maiores times do planeta.
Entre tantas estrelas, alguns brasileiros tiveram a chance de vivenciar o dia a dia desta época dourada. Um deles, um fluminense de Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro, que realizou o sonho de muitos garotos – antes mesmo de completar 18 anos.

(Conteúdo oferecido por Ford, Novibet e Betano)
Cria da base do Fluminense, o ex-zagueiro Arthur Cunha teve uma experiência de intercâmbio nos Red Devils e durante dois anos – com idas e vindas do Brasil para a Inglaterra em períodos de três meses – conviveu com algumas das principais estrelas do futebol mundial.
“É surreal, a ficha nem caía. Estávamos deslumbrados, só víamos aqueles caras no videogame, não imaginava nem que teria contato com eles… Um garoto de 15, 16 anos, que saiu de Duque de Caxias, nunca imaginaria que passaria por isso com essa idade”, disse o ex-jogador em entrevista ao ESPN.com.br.
Em 2006, depois de se destacar e ser campeão da Copa Nike, competição que reúne jovens sub-15 de todo o Brasil, Arthur chamou atenção de John Calvert-Toulmin, olheiro do United, e recebeu um convite para passar um período no time B do clube inglês. Além dele, os gêmeos Rafael e Fábio, também da base do Flu, foram chamados.
“Quando chegamos em Manchester, dividíamos todo o espaço do CT com os caras (estrelas do United), passávamos por eles, eles almoçavam com a gente, cumprimentavam a gente, treinavam com a gente, ficávamos sem entender”, lembrou.
O convívio no dia a dia também fez Arthur conhecer algumas das estrelas do Manchester United como poucos. Entre eles, Cristiano Ronaldo, que à época iniciava o seu “prime” na Inglaterra. E segundo ele, o astro português foi um que mais o impressionou pelo comportamento nos bastidores.
“Muita gente vê o Cristiano e acha que ele é fechadão, marrento, mas a experiência que eu tive foi totalmente diferente. Sempre tentou ajudar, abraçar os garotos, se você parar para pensar, eram garotos de 15, 16 anos que não sabiam falar o idioma, estavam em um país frio, longe da família. Ele sempre se dispôs, passava pega gente, brincava, treinava com a gente, estava sempre próximo”, contou.
“Quando a gente ia almoçar, ele vinha na nossa mesa para almoçar, brincava, falava um pouco do idioma para nos sentirmos mais confortáveis”, prosseguiu.
“Ele falava bastante do Brasil. Mas ele queria muito mais entender a gente, como estava a nossa situação ‘como vocês estão?’, ‘como está sendo a adaptação?’, ‘estão gostando?’, ‘aonde estão ficando? Se precisarem de alguma coisa, estou aqui’. Só de ter 20 minutos com o Cristiano Ronaldo almoçando, ele se preocupando contigo e te escutando. A gente só respondia o que ele falava, você não tem coragem de perguntar para o Cristiano Ronaldo, ainda mais com a idade que a gente tinha (risos). Ele forçava os assuntos para entender um pouco mais a gente e deixava a gente mais confortável”.
E se fora de campo CR7 já era um craque, dentro dele…
“A parte profissional do Cristiano Ronaldo a gente não tem muito o que falar. Quando eles passavam pelo time B, normalmente faziam um amistoso, lógico que ele não dava 100% porque ele estava se recuperando, mas 50% do Cristiano Ronaldo é absurdo. Passar por essa experiência de treinar com ele, jogar um amistoso com ele, é inacreditável. Eu me recordo de um lance, ele tinha muito aquela de ameaçar chutar, e no amistoso que a gente disputou, ele ameaçou umas duas vezes, e o cara tropeçou e caiu. Dentro de campo, você vendo aquilo, você fala ‘é bizarro’, é um atleta totalmente de outro nível”.
‘Muito gente boa, mas um pouco mais sério’
Além de Cristiano Ronaldo, outros jogadores chamaram a atenção de Arthur Cunha pela receptividade e carisma no dia a dia. Já alguns, de fato eram mais fechados, e muito por conta da barreira da língua.
“Tinha uns caras mais fechados, tipo o Giggs, o Scholes, mas o Ferdinand era muito brincalhão, o Van der Sar era muito gente boa, o (Wes) Brown. E outros não sabiam falar português e não se aproximavam tanto”, recordou.
Outro jogador que chamou atenção de maneira positiva do zagueiro brasileiro foi Nemanja Vidic. O companheiro de posição inclusive rendeu uma situação inusitada durante um amistoso do time B dos Red Devils.
“Apesar de não falar português, (Vidic) sempre foi muito gente boa. Quando ele chegou, estava fora e forma, então participou de um amistoso e eu joguei do lado dele. No final teve uma situação engraçada, o juiz veio falar comigo, achando que eu era o Vidic porque eu tinha ido muito bem. O Vidic estava fora de forma e não estava dando 100% porque não precisava, eu estava dando 1000% (risos). Foi engraçado ser confundido com Vidic, um jogador do porte e da qualidade dele, isso para mim foi surreal”.
Comandante daquele estrelado esquadrão, Sir Alex Ferguson, segundo contou o ex-zagueiro, era a pessoa de acesso mais difícil no clube, mas nas vezes que esteve com o lendário técnico escocês, a recepção foi de alto nível.
“Ele tinha a sala dele, que era virada para o campo de treino, assistia ao treino do escritório. Quando ele chegava, sempre vinha bater um papo com a gente, tentar entender se estávamos gostando para nos deixar mais confortáveis para nos adaptarmos o mais rápido possível. Incentivava, mandava a gente só se divertir, para não criar expectativa de botar pressão ‘só façam o que vocês sabem fazer, se não soubessem jogar futebol, vocês não estariam aqui’. Um cara muito gente boa, mas um pouco mais sério, e dá para entender, até pela idade e pela postura profissional que ele tem que ter. Imagina lidar com aqueles figurões do futebol e você ser um cara que não impõe um certo respeito”, disse.
‘Gostava de curtir a vida’
Quem também estava à época no United era o zagueiro Gerard Piqué, lenda do Barcelona e da seleção espanhola. O defensor foi companheiro de time de Arthur, já que passou um período emprestado pelo Barça aos ingleses.
Segundo contou Arthur Cunha, o zagueiro espanhol, que ainda estava começando a carreira, não deixava de aproveitar a vida e gostava de curtir a noite.
“O Piqué era do time B, até por isso poucas pessoas sabem que ele teve uma passagem pelo Manchester United, ele quase nunca jogava no time A. Mas também não era muito focado, era jovem, contrato com o Barcelona, estava emprestado ao Manchester, gostava de curtir a vida. Inclusive, quando a gente chegou teve uma situação bem engraçada: a gente parava o carro no estacionamento e entrava para o CT. Em uma dessas vezes, estávamos em cima do horário, a gente parou o carro, chega o Piqué de Audi TT voado, com a roupa da noite, entrou e foi para o treino. O pessoal comentava que ele sempre fazia isso”, contou.
“Não é o certo, mas ele tinha contrato com o Barcelona longo, sabia que voltaria para lá se não jogasse no Manchester United e poderia jogar lá e virar o que ele virou. Ele tinha pela consciência disso, não estava sendo aproveitado pelo Manchester e falou ‘vou curtir minha vida, fazer o que eu tenho que fazer e quando acabar o empréstimo eu volto para o Barcelona’. E foi exatamente o que ele fez e a gente sabe a história do Piqué”.
1:17
Brasileiro com passagem pelo United chama Piqué de ‘rei da noite’ e conta bastidores do zagueiro na Inglaterra
Arthur Cunha concedeu entrevista exclusiva à ESPN
Diferentemente de Fábio e Rafael, que ficaram em definitivo no clube inglês, Arthur acabou retornando ao Brasil. À época, o fato de não ter o passaporte europeu – os gêmeos possuíam o português – tornou a permanência do zagueiro difícil, já que ocuparia uma vaga de estrangeiro no time principal, o que impediria o United de contratar outras estrelas para o plantel.
“Na Inglaterra tem o limite de estrangeiros, não sei se mudou, mas era bem curto. E independentemente se você fosse jogar ou não no Manchester, quando você contratava um garoto de 16, 17 anos, ele tomaria o espaço de um craque que eles contratassem para o profissional, as decisões para eles tinham que ser muito acertadas. E eu não tinha o passaporte europeu, que facilitaria nesse sentido porque eu não roubaria uma vaga no profissional”, disse.
“Por exemplo, se eles tivessem me contratado, eles não poderiam contratar o Anderson (que chegou em 2007). Se eu tivesse passaporte europeu, facilitaria muito porque não perderiam esta vaga e teriam um garoto brasileiro com passaporte europeu que eles viam qualidade. Os gêmeos têm o passaporte português e, além da qualidade deles, facilitou de não perder espaço no time A”.
‘Craque’ nos investimentos
Depois da experiência em Manchester, Arthur Cunha retornou à Europa, aonde enfim estreou como profissional pelo Estoril, de Portugal. Em seguida, o zagueiro voltou ao Brasil, com passagens por Boavista-RJ, Duque de Caxias-RJ e outros clubes, recebendo novas oportunidades no exterior, atuando na Indonésia, Malta e Malásia, onde encerrou a carreira em 2021, pelo Negeri Sembilan, após uma lesão grave na coxa.
“A minha aposentadoria veio precocemente, eu não esperava. Depois de uma lesão na coxa grave que eu tive na Malásia, acarretou em um hérnia na lombar, e eu com 32 para 33 anos, fui fazer os exames, detectou a hérnia, fiz o que poderia fazer sem ser cirurgia, e não deu o resultado esperado. O médico falou para mim ‘Arthur, você vai conseguir jogar, mas não 100%, de vez em quando vai ter uma dorzinha ou outra, vai ter um incômodo, vai e sentir um pouco inseguro, e no pior dos casos, se você entrar na mesa de cirurgia e alguma coisa dar errado, você sair paraplégico dali’. No momento que eu escutei isso, eu falei ‘não faz sentido correr esse risco para jogar mais dois, três anos'”, contou.
Apesar de ter pendurado as chuteiras antes do imaginado, Arthur encontrou uma nova paixão: os investimentos. Desde 2023, após se graduar em gestão financeira, o agora ex-jogador presta assessoria e tem muitos atletas e ex-atletas na sua carteira de clientes.
“Essa minha escolha por esse caminho foi por eu ter investido para mim durante oito anos antes de me aposentar… Devido aos investimentos que eu tinha feito, eu pude tomar essa decisão tranquilamente de parar, sem que a minha família passasse necessidade, devido à decisão que eu tomei de investir e construir um patrimônio. Daí que veio a minha ideia de ajudar os jogadores a terem pelo menos o que eu tive ou mais. Eu não fui um jogador top, fui mediano, e mesmo assim construí um patrimônio que me deu certo conforto e segurança para mim e minha família”, disse.
“Nesse mesmo período que eu resolvi parar, vários amigos meus que jogaram comigo estavam parando, passando um certo aperto, e outros iam jogar em países como Camboja, países bem pequenos, para ganhar um salário simplesmente para sustentar a família, um salário bem baixo. Eu pensei: preciso ajudar esses atletas para que não passem por essas situações que os meus amigos estão passando, eles eu não vou conseguir ajudar porque não tem mais tempo, mas eu consigo ajudar essa galera que está vindo”, prosseguiu.
“Foi aí que eu tomei a decisão de passar a minha experiência tanto como atleta e investidor, e depois tirei as minhas certificações, me formei em gestão financeira, para juntar e entregar o melhor possível para os atletas e ajudá-los a ter um futuro bom e levar segurança para a família após a carreira. A gente sabe que carreira de jogar é curta e se ele não se preparar para isso, ainda tem mais 35, 40 anos pela frente fora do futebol, que ele tem que viver e tentar manter a família dele, se ele não se preparar, a vida pode ser muito dura para esse atleta lá na frente”.
Atualmente, Arthur presta assessoria para mais de 110 atletas do futebol masculino, feminino e base, em mais de 36 países. Alguns dos seus clientes são conhecidos, como o atacante Kenedy, ex-Chelsea, Flamengo e Fluminense, e Kerolin, atacante do Manchester City e da seleção brasileira feminina.
“A intenção é ajudar cada vez mais atletas, se for necessário, aumentar a minha equipe para atender esses atletas da melhor maneira possível e ajudá-los. A minha intenção é me tornar uma referência no esporte, na gestão financeira dos atletas. Estou em busca disso e não tenho dúvidas que vou conseguir”, finalizou.


