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Enquanto falta mão de obra para as companhias ônibus, “panelinhas” e “esquemas” em garagens prejudicam trabalhadores e empresários


Foto somente ilustrativa

Diversos motoristas, de diferentes partes do País relataram problemas de “apadrinhamentos”  e supostos “mercado de vagas” que, muitas vezes, primeiros e segundos escalões das viações sequer sabem

ADAMO BAZANI

Toda a vez que o Diário do Transporte publica que faltam motoristas de ônibus no mercado (e realmente há este déficit que pode chegar a mais de 20 mil profissionais no País, de acordo com as associações de transportadores), a reportagem recebe uma série de comentários do tipo: “Engraçado, falam que falta motorista…Eu canso de mandar currículo, passo nos testes, mas ninguém chama. Tenho experiência, nunca me envolvi em acidente grave, nunca processei empresa nenhuma que saí e nada” …

Em seu caráter de jornalismo factual que tenta apurar a realidade do que ocorre no setor, o Diário do Transporte começou a apurar tais comentários.

Ao longo de semanas, o repórter Adamo Bazani entrou em contato com motoristas, com garagens. Até mesmo nos passamos por interessados em vagas.

Foram diferentes cidades em contatos pessoais e por telefone em regiões diversas no Brasil. As apurações foram desenvolvidas em semanas…idas a garagens, ligações, trocas de mensagens, várias viagens batendo papo com quem está atrás do volante….

Em alguns contatos, como em cidades da Região Metropolitana de São Paulo, os relatos foram até mesmo de cobrança de depósitos em dinheiro com “preços fixos” ou valores equivalentes a benefícios para que houvesse indicações. Muitas vezes feitas por terceiros, que atuam externamente às garagens, mas têm relação com recrutadores e examinadores, dos terceiros escalões para baixo.

“Me cobraram três meses de vale-refeição. Isso se eu passasse no teste. Ou seja, passar no teste não bastava para ser chamado. Passa, passou, aí acerta com a pessoa e tudo está encaminhado” – disse um motorista, hoje empregado em um grupo empresarial que profissionalizou o recrutamento de trabalhadores.

A partir de um comentário de leitor, que foi preservado para proteção e segurança pessoal, a reportagem entrou em contato com uma empresa no Nordeste do País.

O repórter se passou por um condutor interessado em uma vaga.

Após a ligação passar de mão em mão, chegou a um homem que se apresentou como responsável pelo treinamento.

A conversa foi, no mínimo, estranha:

Suposto Instrutor: Como você ficou sabendo das vagas?

Repórter: Pela internet…

Suposto Instrutor: Mas como, se não foi anunciado

Repórter: Vi numa página do Face (Facebook) que tem motorista… (REPÓRTER FOI INTERROMPIDO).

Suposto Instrutor: É o seguinte. Você conhece o João? (nome fictício, o contato passou outro nome)

Repórter: Não, quem é? É da empresa?

Suposto Instrutor: Não, não. Mas tem de falar com ele. Ele explica.

Repórter: Tem telefone ou “zap” (WhatsApp)?

Suposto Instrutor: Passa aqui na garagem. Vem na segunda-feira até cinco da tarde….

De uma pequena empresa de ônibus no Sul do País, os trabalhadores disseram ao repórter Adamo Bazani que só era possível o recrutamento por meio de indicações que, nem sempre eram legítimas.

“A real, tem gente até envolvida com coisa errada [crimes] que consegue vaga. Tem gente que tem carteira D [obrigatória para dirigir ônibus], tem curso obrigatório, mas não é bom profissional. Falta, bate, vai ruim no teste. E tá lá, trabalhando. Nada acontece” – disse por telefone após um contato por e-mail.

Pelo que a reportagem apurou ao longo destas semanas, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, tanto pelos relatos como verificando mais de perto, é que se os bons profissionais são vítimas, os empresários de ônibus também são.

Muitos sequer sabem exatamente o que ocorre. Ainda mais em grupos maiores. Por isso que delegam os cargos e funções.

Entretanto, há os que sabem, mas temem.

“Olha, já foi pior. Agora tá mais moralizado. Graças a Deus. Mas se chega algum pedido desse pra gente [indicações que nem sempre são apenas profissionais], a gente avalia e, dependendo do que for, é complicado. Não tem como ir muito contra” – disse um diretor de empresa.

O repórter Adamo Bazani pensou que encontraria mais resistência de representantes das empresas sobre o assunto. Porém, aparentemente, a impressão foi de que o setor quer que algum veículo de comunicação levante o assunto, ao menos.

“Vai fazer reportagem disso? Você é louco. Mas ia ser muito bom viu. Eu tento controlar ao máximo, mas nem sempre dá. Hoje tá melhor, mas ainda tem sim. No passado, meu pai teve até ônibus queimado porque quis bater de frente. Aliás, muito se fala em Comando Vermelho e PCC…Mas muita gente usa estes nomes viu” – disse outro responsável por empresa de ônibus, que emendou.

“Só uma coisa, cuidado porque o negócio é perigoso. Não fala nomes. Mas é bom mesmo colocar o assunto” – disse

Durante as semanas de produção de matéria, uma dúvida surgiu neste repórter:

“Será mesmo que os empresários são vítimas mesmo?”

Talvez um comentário ouvido por telefone de um diretor de viação responda e indique um perfil:

“Você acha que eu seria louco de tomar multa por má condução do meu empregado ou colocar em risco vidas e um patrimônio de R$ 1 milhão? [valor estimado de um ônibus]. Mas sabe como é….hoje é mais de vez em quando. Mas na real, acontece ainda, e às vezes é pior bater de frente. Eu não vou ganhar dinheiro com trocado de “pedágio’ de salário. Mas tem gente que ganha”

De acordo ainda com as apurações, realmente os chamados “esquemas” de vagas eram bem maiores no passado. Mas dizer que não existem no setor, é um engano.

Assim como não é o principal motivo da falta de mão de obra nos sistemas de transportes, mas contribui para o problema. Isso porque, além de ser uma “cláusula de barreira”, desanima o trabalhador honesto a ficar no ramo.

E, entenda-se como “esquemas”  ou “panelinhas” não propriamente dito indicações de amigos ou conhecidos que possam ter experiência e ser contratados – algo comum em todos os ramos, até no jornalismo.  O termo se refere a mercado paralelo de vaga mesmo.

Os agentes de tais esquemas são os mais variados possíveis, de acordo com as apurações: funcionários, líderes de “comunidades”, pessoas ligadas  a criminalidade e também a sindicatos.

Sobre os sindicatos, vale ressaltar que isso não significa que os sindicatos (enquanto entidades e instituições) são reuniões de bandidos, coniventes, que se beneficiam de atos irregulares.

Pelo contrário, se não fossem sindicatos (de novo, enquanto entidades e instituições), muitos direitos sequer existiriam.

Mas entidade são formadas por pessoas. E muitas delas se aproveitam da proximidade com o mundo dos trabalhadores.

Se pessoas cometem atos ilícitos sendo líderes religiosos (que pregam uma vida reta), policiais (que devem zelar por segurança), jornalistas (que precisam ter um compromisso com a verdade), médicos, fisioterapeutas e enfermeiros (que têm um compromisso com a saúde e com vidas) e advogados, promotores e juízes (cujos trabalhos deveriam promover a Justiça), seria ingenuidade pensar que em entidades sindicais ou entre pessoas ligadas a profissionais de transportes haveria somente perfeição e retidão.

Algumas dicas podem ajudar a minimizar o problema, que realmente, já foi maior:

– Profissionalizar os recrutamentos e testes, inclusive contratando empresas terceirizadas especializadas;

– Firmar parcerias com entidades de credibilidade, como Sest/Senat, escolas técnicas e universidades;

– Criar escolinhas internas e de formação de motoristas em parcerias com estas entidades de credibilidade;

– Adotar “compliances” e consultorias/auditorias externas;

– E, sem demagogia, mas uma dica mesmo: ouvir o passageiro….se em determinada linha ou horário tem muita reclamação da condução ou tratamento ao usuário, investigue.

– Ouvir os funcionários com mais atenção;

– Mesmo sendo um grande grupo, nunca deixar de estar no pátio, no “mão na graxa”. Um dono de empresa de ônibus que “dá as caras”, fala muita coisa. Só sua presença, já significa sinais claros – Recado principalmente para as novas gerações de empreendedores.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



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