Publicado em: 6 de fevereiro de 2026

Painel do Fórum do DETRO-RJ reuniu visões convergentes sobre a necessidade de bons projetos, assistência técnica e integração entre planejamento urbano, mobilidade e financiamento para viabilizar a transição energética das frotas
ALEXANDRE PELEGI
A viabilização financeira de projetos de descarbonização das frotas do transporte público passa menos pela falta de recursos e mais pela ausência de projetos tecnicamente maduros, com segurança institucional e capacidade de execução ao longo do tempo. Esse foi o diagnóstico comum apresentado por representantes do Banco Mundial e do Ministério das Cidades durante o painel “Financiamentos: como captar recursos para implantação de projetos de descarbonização de frotas”, realizado nesta quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026, no Fórum promovido pelo DETRO-RJ, no Rio de Janeiro.
Consultor em transportes do Banco Mundial, Bernardo Serra sintetizou um mantra recorrente no debate internacional: “dinheiro existe, o que falta são projetos estruturados”. Segundo ele, do ponto de vista dos financiadores, o elemento central é a confiança de que o projeto “para em pé” técnica, institucional e financeiramente.
“Quando a gente trabalha na parte do financiamento, vê que há recurso disponível, mas falta algo estruturado, que dê confiança ao financiador de que o projeto pode ser financiado ao longo do tempo. No caso dos ônibus elétricos, há muitas novidades sendo implementadas, mas que precisam estar bem equacionadas para o projeto se sustentar”, afirmou.
Bernardo ressaltou que a eletrificação envolve, em muitos casos, revisões contratuais complexas, com sensibilidades locais e sem soluções padronizadas. Nesse cenário, a atuação do Banco Mundial tem se concentrado na oferta de assistência técnica para estruturar projetos, em articulação com iniciativas do governo federal e de outras instituições multilaterais.
“A gente tem visto movimentos importantes do Ministério das Cidades, com parcerias com GIZ, C40, e também do próprio BNDES, que conta com um fundo de estruturação de projetos. Muitas vezes, o problema é o desencontro de ciclos, especialmente o ciclo político, porque estruturar projetos leva tempo”, explicou.
De acordo com o consultor, se prefeitos ou governadores não iniciam a estruturação logo no início do mandato, dificilmente conseguem acessar financiamentos dentro do período de governo. Por isso, o apoio técnico prévio se torna decisivo para transformar intenção política em projetos financiáveis, inclusive em parcerias com a Caixa Econômica Federal.
Eletrificação como tecnologia mais madura no momento
Questionado sobre o foco dos grandes financiamentos na eletrificação, Bernardo Serra avaliou que, no estágio atual, os ônibus elétricos apresentam vantagens comparativas relevantes, sobretudo na redução do custo operacional ao longo do tempo.
“A tecnologia elétrica tem hoje um benefício maior, principalmente na redução do custo operacional do sistema, quando se consegue equacionar o investimento inicial, que ainda é um desafio no Brasil. Além disso, tem a emissão zero, com impactos positivos na saúde pública e no enfrentamento das mudanças climáticas.”
Segundo ele, trata-se de uma tecnologia já testada em diversos países e também no Brasil, com resultados consistentes. Isso não significa, porém, que outras alternativas estejam descartadas no futuro, mas que, no atual nível de maturidade, o elétrico se mostra mais promissor do ponto de vista financeiro e operacional.
Planejamento e realidade local no centro da política pública
Pelo lado do governo federal, Ana Paula Moraes, coordenadora-geral de Projetos Especiais da Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, destacou que a estruturação de projetos passa, antes de tudo, por planejamento integrado e compreensão da realidade local.
“Essa é uma coordenação nova dentro do ministério, pensada para ter uma visão transversal, mais próxima dos municípios e da realidade. Quanto mais a gente está na ponta, entendendo os problemas de cada cidade, mais conseguimos formular políticas públicas efetivas.”
Ana Paula lembrou as dificuldades enfrentadas pelos municípios brasileiros, especialmente os de menor porte, para cumprir exigências básicas como a elaboração dos planos de mobilidade urbana.
“A gente acompanhou o encerramento dos prazos para envio dos planos de mobilidade e, na prática, torcia para passar de 20% de adesão. Muitos municípios sequer têm um técnico especializado na área, o que mostra o tamanho do desafio.”
Para ela, o plano de mobilidade deve funcionar como um instrumento de convergência entre políticas hoje fragmentadas.
“Você tem plano diretor desconectado do orçamento, que é desconectado da mobilidade. Planejamento urbano, habitação, trânsito, transporte coletivo e meio ambiente precisam conversar. Se a cidade cresce de forma espalhada ou constrói habitação longe do centro, o transporte coletivo paga essa conta.”
Descarbonização não tem solução única
No debate sobre tecnologias, Ana Paula reforçou que a eletrificação não deve ser encarada como solução única para todos os contextos.
“Se um lugar tem gás, por que não utilizar? Se tem vocação para uma tecnologia menos poluente, como o Euro 6, por que não pensar nisso como etapa inicial? O elétrico tem desafios claros, como a garantia de abastecimento de energia, que variam muito de cidade para cidade.”
Segundo ela, a chave está em reconhecer as particularidades locais e trabalhar com diferentes rotas tecnológicas de forma planejada e progressiva.
Operadores como parte central do processo
Outro ponto destacado pela representante do ministério foi o papel crescente dos operadores de transporte na transição energética.
“Os operadores deixaram de ser passivos. Eles compram veículos, indicam especificações, planejam a operação. Não há como fazer qualquer mudança sem ouvir quem está operando e conhece a realidade local.”
Ana Paula lembrou que existem instrumentos de financiamento também voltados ao setor privado, como linhas com recursos do FGTS, a exemplo do Refrota, e que a convergência entre poder público, operadores e usuários é essencial.
“Se município, operador e usuário não convergirem para oferecer um transporte coletivo confiável, confortável e atrativo, todo mundo perde. Sem passageiro, não há sustentabilidade, independentemente da tecnologia.”
Integração e próximos passos
Ao final do painel, tanto Banco Mundial quanto Ministério das Cidades reforçaram que a descarbonização das frotas depende menos de anúncios isolados e mais de planejamento consistente, projetos bem estruturados e articulação entre os diferentes níveis de governo e agentes do sistema.
Ana Paula indicou ainda que novas iniciativas federais estão em discussão para apoiar os municípios, embora sem detalhar prazos ou formatos, e reconheceu a importância de fóruns e eventos técnicos como espaços de troca e amadurecimento das políticas públicas.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


