Publicado em: 14 de fevereiro de 2026

Para o especialista Ilo Löbel da Luz, o “não” dos jovens profissionais revela a necessidade urgente de rever cultura, liderança e propósito no setor
ALEXANDRE PELEGI
A frase “Não sei o que quero ser, mas sei o que não quero ser”, da escritora Clarice Lispector no romance Perto do Coração Selvagem, ajuda a iluminar um debate cada vez mais frequente em reuniões empresariais: a dificuldade de contratar e reter jovens talentos.
Para o especialista Ilo Löbel da Luz, o chamado “apagão” de mão de obra não é desinteresse — é transformação. E o setor de transporte precisa interpretar corretamente esse sinal.
“O jovem não está rejeitando o trabalho. Está rejeitando relações de trabalho que não fazem mais sentido”, afirma. “Isso é um recado direto para gestores e consultores do transporte.”
Segundo Ilo, o ambiente de mudanças rápidas — impulsionado por tecnologia, Inteligência Artificial e novas formas de organização — torna inviável exigir planos de carreira rígidos.
“Como alguém pode prometer dez anos de fidelidade a uma função que talvez nem exista da mesma forma daqui a cinco?”, questiona. “O mapa está mudando. A empresa que não muda junto perde talento.”
Para ele, o “não” virou mecanismo de defesa e critério profissional. “Essa geração tem clareza do que não aceita: burnout romantizado, chefia tóxica, ausência de propósito. Isso não é fragilidade. É filtro.”
No setor de transporte, as lições são práticas. Ilo destaca três.
“A primeira é cultural: discurso precisa virar prática. Não adianta falar em mobilidade sustentável e manter ambientes internos insustentáveis.”
“A segunda é estratégica: propósito é ativo competitivo. Transporte público tem impacto social direto. Se o gestor não comunica isso de forma autêntica, desperdiça uma força enorme de atração.”
“A terceira é liderança: comando vertical perdeu eficiência. O jovem quer participação, clareza e coerência.”
Para o especialista, o “apagão” pode ser, na verdade, um desalinhamento estrutural.
“Talvez não falte gente querendo trabalhar no transporte. Talvez falte revisão de modelo”, diz. “Quando a empresa entende que o ‘não’ é diagnóstico e não rebeldia, começa a evoluir.”
E conclui com um alerta ao setor:
“Se continuarmos dizendo que o problema é a geração, vamos continuar com dificuldade de contratar. Se aceitarmos que o problema pode ser o formato, abrimos espaço para inovação também na gestão de pessoas.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


