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o que Varsóvia e Cracóvia na Polônia nos contam sobre mobilidade urbana


Em visita às cidades polonesas, Diário do Transporte observa como decisões do passado moldam sistemas integrados e eficientes até hoje

ALEXANDRE PELEGI

Estive no início de abril em Varsóvia e Cracóvia, na Polônia, e a sensação que fica é imediata: ali, o transporte público não é um problema a ser resolvido — é uma estrutura consolidada sobre a qual a cidade funciona.

Mas entender essas cidades exige ir além do que se vê. Exige olhar para trás.

Antes mesmo de aprofundar essa análise, um episódio curioso ajudou a iluminar o caminho. Mostrei a um amigo, Rafael Teles, diretor da Transdata, um vídeo que havia gravado dentro de um tram em Varsóvia. Sem qualquer contexto, sem dizer onde era, ele olhou rapidamente e respondeu: “O validador é da finada Monetel. O bonde eu não reconheci. Como só tem porta de um lado, deve ser algum país ex-URSS. Se fosse na Itália já teria validadores mais novos. República Tcheca, Estônia ou Polônia?

Validador da “finada” Monetel no Tram de Varsovia

Ele não apenas acertou o bloco geográfico, como revelou algo essencial: o transporte carrega a história nos detalhes. Na sequência da conversa, veio a chave de leitura que ajuda a organizar toda essa análise: não dá para entender o transporte de uma cidade sem entender as raízes históricas que moldaram esse sistema.

Varsóvia: reconstrução e o transporte como política de Estado

Varsóvia foi devastada na Segunda Guerra Mundial, e a cidade hoje, com cerca de 1,86 milhão de habitantes é, em grande parte, resultado de uma reconstrução planejada. Sob influência do bloco socialista, esse processo não foi apenas arquitetônico, mas profundamente urbano. A cidade foi redesenhada com grandes avenidas, eixos estruturais bem definidos e, sobretudo, com o transporte coletivo como elemento central da organização urbana. Diferentemente de muitas cidades ocidentais que cresceram ao redor do automóvel, Varsóvia se estruturou com base na lógica de que o transporte público é infraestrutura essencial do Estado.

Essa origem explica por que, ainda hoje, o sistema funciona de forma tão integrada.

Um sistema que funciona como rede

Varsóvia combina diferentes modos de transporte de maneira clara e complementar. O metrô (vídeo abaixo) cumpre o papel de estruturar deslocamentos mais rápidos e de maior distância, enquanto o tram organiza os principais eixos urbanos com regularidade e previsibilidade. Já o ônibus atua como elemento de distribuição, garantindo capilaridade e conectando áreas que não são atendidas pelos trilhos. Tudo isso acontece em uma cidade que favorece o acesso, com calçadas amplas, ciclovias bem integradas e travessias eficientes, o que reforça a lógica de rede.

Mas o que mais impressiona é a forma como a tecnologia foi incorporada ao sistema, especialmente no caso dos ônibus.

Os ônibus elétricos articulados de Varsóvia são hoje um dos símbolos mais evidentes dessa modernização. O modelo predominante é o Solaris Urbino 18 Electric, fabricado na própria Polônia, o que também revela uma estratégia industrial alinhada ao transporte público. Com cerca de 18 metros de comprimento e capacidade para mais de 100 passageiros, esses veículos apresentam piso baixo em toda a extensão, garantindo acessibilidade plena.

O avanço, no entanto, está na engenharia. Ao contrário dos modelos tradicionais, não há uma “torre de motor” traseira. Os componentes são distribuídos ao longo do veículo, o que permite melhor aproveitamento do espaço interno e reduz significativamente o nível de ruído e vibração. As baterias, com capacidade superior a 700 kWh, estão entre as mais robustas da categoria, permitindo operação contínua ao longo do dia em linhas urbanas intensas.

O sistema de carregamento combina recarga noturna nas garagens com reforço ao longo da operação, por meio de pantógrafos instalados em pontos estratégicos da rede. E, mais importante do que a tecnologia em si, é a escala em que ela foi adotada. Varsóvia já conta com mais de 160 ônibus elétricos em operação, com expansão contínua da frota. Não se trata de projeto piloto ou vitrine, mas de uma política pública consolidada, integrada ao restante do sistema.

O trilho como linguagem urbana

Tanto em Varsóvia quanto em Cracóvia, o tram ocupa um papel central que vai além do transporte em si. Ele funciona como uma linguagem urbana, desenhando os principais eixos da cidade e oferecendo uma referência clara para os deslocamentos. Com alta frequência, regularidade e presença física marcante, o trilho organiza fluxos e dá previsibilidade ao sistema. É um papel que, em muitas cidades brasileiras, tenta ser cumprido por corredores de ônibus, nem sempre com o mesmo nível de consistência.

Tram de Varsóvia

Cracóvia, por sua vez, hoje com mais de 800 mil habitantes, seguiu uma trajetória distinta. Menos afetada pela destruição da II Guerra, preservou sua estrutura medieval, com uma malha urbana mais compacta e centrada no pedestre. Essa configuração moldou um sistema de transporte igualmente coerente com a escala da cidade. O tram assume praticamente todo o papel estrutural, conectando bairros ao centro com eficiência e frequência, enquanto os ônibus atuam como complemento, com uma frota que também incorpora tecnologias elétricas, híbridas e veículos de maior capacidade nos eixos mais demandados.

Tram de Cracóvia

A ausência de metrô, que em muitos contextos seria vista como limitação, aqui não compromete o funcionamento do sistema. Isso porque a cidade foi pensada como uma rede integrada, onde o acesso a pé, o uso da bicicleta e o transporte coletivo se articulam de forma natural.

O contraponto brasileiro: por que seguimos outro caminho?

A conversa com Rafael Teles também trouxe uma reflexão inevitável sobre o Brasil. Até meados do século XX, o país contava com extensas redes ferroviárias de passageiros e sistemas de bondes presentes em diversas cidades. No entanto, esse modelo foi progressivamente abandonado ao longo das décadas seguintes. A priorização do transporte rodoviário como política nacional, impulsionada pela expansão da indústria automobilística, somada à fragmentação institucional e à falta de continuidade no planejamento, levou à desestruturação desses sistemas.

Enquanto cidades da Europa Central e do Leste mantiveram e modernizaram suas redes, o Brasil optou por substituí-las por soluções mais fragmentadas. O resultado é um cenário em que o ônibus, muitas vezes, precisa assumir sozinho funções que, em outros contextos, são distribuídas entre diferentes modos, gerando sobrecarga e perda de eficiência.

Conclusão: o transporte como herança — e como escolha

Varsóvia e Cracóvia mostram que transporte público eficiente não é resultado de soluções pontuais, mas de processos históricos contínuos. A forma como essas cidades se organizaram ao longo do tempo explica, em grande medida, o que vemos hoje. Ainda assim, a história não determina o futuro. Ela oferece referências.

A principal lição talvez seja justamente essa: transporte público não é apenas uma questão técnica, mas uma escolha de cidade. Quando há clareza de visão, integração entre modos e continuidade de planejamento, o sistema deixa de ser um problema a ser resolvido e passa a ser parte natural da vida urbana.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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