23 C
Rondonópolis
terça-feira, 13 janeiro - 15:39
- Publicidade -
Publicidade
HomeTransportes“O Rio está diante de uma decisão que vai moldar o transporte...

“O Rio está diante de uma decisão que vai moldar o transporte por décadas”, diz consultor da ANTP sobre o Fórum de Transição Energética do DETRO-RJ


Nova licitação do sistema intermunicipal rompe com a lógica da outorga financeira e transforma o valor em investimentos obrigatórios em ônibus elétricos, veículos a gás e infraestrutura

ALEXANDRE PELEGI

O transporte intermunicipal do Estado do Rio de Janeiro atravessa um momento de inflexão histórica. Às vésperas de uma nova licitação para a operação do sistema, o governo fluminense decidiu romper com o modelo tradicional de cobrança de outorga financeira e substituir essa lógica por um eixo considerado estratégico: a transição energética da frota.

Em vez de exigir pagamento direto das concessionárias vencedoras, o Estado optou por converter o valor estimado da outorga em investimentos compulsórios em ônibus elétricos, veículos movidos a gás natural e biometano, além de toda a infraestrutura necessária para sua operação. Estão incluídos nesse pacote garagens adaptadas, sistemas de recarga elétrica, abastecimento de gás e planejamento logístico compatível com os novos modelos energéticos.

É nesse contexto que acontece o Fórum de Transição Energética, promovido pelo DETRO-RJ nos dias 3 e 4 de fevereiro, reunindo gestores públicos, operadores, especialistas e representantes da indústria para discutir os impactos técnicos, regulatórios e econômicos desse novo desenho contratual e operacional.

Para contribuir com esse debate, o Diário do Transporte conversou com o engenheiro Olímpio Alvares, membro do COMFROTA, comitê responsável pelo acompanhamento da substituição da frota de ônibus da cidade de São Paulo, onde atua representando a ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos).

A ANTP é uma das apoiadoras institucionais do Fórum, ao lado de entidades como a ABIOGAS (Associação Brasileira do Biogás), o ITDP (Instituto de Transporte e Desenvolvimento), o SEMOVE (Federação das Empresas de Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro) — entidade que representa os sindicatos e as empresas de ônibus em todo o estado — e o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana.

Leia a entrevista a seguir:

Diário do Transporte — Qual a relevância do Fórum de Transição Energética neste momento do transporte intermunicipal do Rio de Janeiro?

Olímpio Alvares — O Fórum é extremamente oportuno. O Estado está diante de decisões estruturais, que vão moldar o transporte intermunicipal por muitos anos. Não se trata apenas de substituir o diesel, mas de garantir que a escolha tecnológica atenda ao interesse econômico público, reduza impactos ambientais e climáticos e, ao mesmo tempo, melhore o conforto e a qualidade do serviço prestado aos passageiros. O mérito do DETRO é abrir um debate técnico antes da consolidação dessas escolhas.

 

Diário do Transporte — Quais são, hoje, as alternativas mais concretas no horizonte dos operadores?

Olímpio Alvares — No curto prazo, há duas alternativas claramente colocadas. A primeira são os ônibus elétricos a bateria, que já estão disponíveis no mercado brasileiro, mas precisam ser avaliados de acordo com as características operacionais do sistema fluminense, que envolve longas distâncias, elevada quilometragem diária e diferentes condições topográficas.
A segunda alternativa são os ônibus equipados com motores do Ciclo Otto movidos a gás natural e, eventualmente, a biometano, desde que esse combustível esteja disponível localmente, por meio de injeção na rede de distribuição de gás, e em condições econômicas competitivas.

 

Diário do Transporte — No caso do biometano, quais são os desafios regulatórios mais relevantes?

Olímpio Alvares — O ponto central é a certificação de origem. Para que se possa afirmar que a operação é efetivamente renovável, é indispensável que o processo de certificação do metano de origem em biomassa seja normatizado, transparente e auditável. Sem isso, corre-se o risco de rotular como sustentável algo que, na prática, não é. Esse é um tema regulatório sensível e certamente estará no centro das discussões do Fórum.

 

Diário do Transporte — A eletrificação da frota exige mudanças estruturais nas garagens?

Olímpio Alvares — Sem dúvida. O ônibus elétrico não pode ser analisado apenas como um veículo diferente. Ele exige uma infraestrutura completamente nova nas garagens: subestações, redes de carregadores, definição de lay-out interno, além de sistemas complementares de armazenamento de energia, como os sistemas BESS, que utilizam baterias estacionárias para gestão de carga. Tudo isso precisa estar integrado a um sistema de gerenciamento inteligente do carregamento, o que aumenta a complexidade técnica do projeto.

 

Diário do Transporte — A troca futura das baterias também entra nessa equação?

Olímpio Alvares — Entra de forma muito relevante. As baterias têm uma vida útil estimada, em princípio, entre sete e oito anos. A substituição futura envolve questões ambientais, financeiras e logísticas: descarte adequado, reciclagem, reaproveitamento em aplicações estacionárias e impacto no custo total do sistema. Existem várias possibilidades tecnológicas e contratuais, mas é fundamental que essas questões sejam consideradas desde já.

 

Diário do Transporte — Há espaço, no médio prazo, para tecnologias baseadas em motores diesel mais modernos?

Olímpio Alvares — Essa possibilidade não deve ser descartada a priori. Para os próximos anos, pode haver espaço para veículos com motores diesel Euro 6, desde que o Brasil disponha, em condições competitivas, de biocombustíveis líquidos avançados, como biodiesel de qualidade superior ou o chamado Diesel Verde, o HVO. O Brasil é reconhecido internacionalmente como a “Meca dos Biocombustíveis”, e o transporte coletivo pode se beneficiar dessa vocação, desde que haja oferta, regulação e preço adequados.

 

Diário do Transporte — Qual deve ser o critério central para a tomada de decisão pelo poder público?

Olímpio Alvares — A decisão precisa ser técnica, transparente e orientada pelo interesse público. Não existe uma solução única ou universal. O fundamental é compreender os impactos de cada alternativa no custo do sistema, na confiabilidade da operação, no meio ambiente e na qualidade percebida pelo passageiro. O Fórum do DETRO cumpre exatamente esse papel: criar um ambiente qualificado de debate antes das escolhas definitivas.


Para ver a programação e fazer inscrição para participar do Fórum:

 

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



Fonte

RELATED ARTICLES

Most Popular

Recent Comments