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por que o Transporte Rodoviário de Passageiros precisa desaprender para sobreviver


Advogado e especialista em regulação, Ilo Löbel da Luz analisa os recados do CEO da Amazon para o transporte rodoviário e alerta: insistir no passado pode ser o maior risco do setor

ALEXANDRE PELEGI

Há algo de desconfortável — e necessário — na leitura das cartas anuais de executivos como Andy Jassy, CEO da Amazon. Não são textos para inspirar, mas para provocar. Não falam de crescimento, mas de sobrevivência.

Para o setor de transporte rodoviário interestadual de passageiros (TRIP), a mensagem ecoa com força. Em um ambiente regulatório ainda fortemente ancorado em previsibilidade, concessões e séries históricas, a lógica apresentada por Jassy parece quase um choque de realidade.

E, na avaliação do advogado e especialista em regulação Ilo Löbel da Luz, esse choque não é opcional.

O transporte rodoviário brasileiro ainda opera como se o futuro fosse uma extensão linear do passado. E isso simplesmente não existe mais.”

A ilusão da previsibilidade

Para Ilo, o primeiro ponto crítico está naquilo que ele chama de “mentira da linha reta” — a crença de que a demanda seguirá padrões históricos.

“No TRIP, o planejamento ainda é profundamente dependente da série histórica. Frequências, horários, oferta… tudo parte do pressuposto de repetição. Mas o comportamento do passageiro mudou. Ele não é mais previsível, ele é volátil.”

Segundo ele, esse descompasso abre espaço para novos competidores — especialmente plataformas digitais, que operam com lógica adaptativa.

“Enquanto a empresa tradicional ajusta sua oferta com base no que aconteceu no mês passado, a plataforma reage em tempo real. Isso cria uma assimetria competitiva brutal.”

Outro ponto recorrente, segundo Ilo, é a confusão entre investimento e transformação.

“O setor ainda acredita que inovar é renovar a frota. Comprar um ônibus Double Decker, colocar Wi-Fi, melhorar o conforto. Isso é importante, mas não muda o modelo de negócio.”

Para ele, a verdadeira inflexão está na forma como a viagem é estruturada.

“Inovação real é redesenhar a jornada: embarque com biometria facial, precificação dinâmica, personalização da experiência. É usar tecnologia para redefinir o serviço, não apenas para melhorá-lo.”

E vai além:

“Se a tecnologia não sustenta a lógica da operação, ela vira acessório. E acessório não salva empresa quando o mercado muda.”

Um dos pontos mais provocativos da carta de Jassy, na visão de Ilo, é a defesa da velocidade sobre a perfeição.

“O setor de transporte tem uma aversão quase estrutural ao risco. Muito por conta da regulação, claro. Mas isso gerou uma cultura de paralisia.”

Ele resume o dilema de forma direta:

“É melhor ter dois projetos rodando e um falhar do que nenhum projeto por medo de errar.”

Na prática, isso significa testar.

“Criar linhas experimentais, testar novos formatos de serviço, explorar alternativas dentro do que a regulação permite. O custo de não testar nada hoje é muito maior do que o custo de errar.”

IA não é diferencial — é pré-requisito

Se antes a tecnologia era vista como vantagem competitiva, hoje, segundo Ilo, ela se tornou condição de sobrevivência.

“A inteligência artificial não é mais um ‘plus’. Ela é a base operacional.”

Ele cita dois pontos críticos: “Escala de motoristas e manutenção preditiva. Quem não usar IA nesses processos vai operar com custo maior. E custo maior, nesse mercado, significa perda de competitividade.”

A lógica é simples — e dura:

“Não é sobre ser inovador. É sobre não ficar para trás.”

Talvez o ponto mais sensível da análise de Ilo esteja na relação do setor com seus próprios ativos.

“O maior ativo de uma transportadora hoje — suas linhas autorizadas — pode ser, paradoxalmente, o maior freio à inovação.”

Segundo ele, há uma dificuldade estrutural em abandonar modelos que, embora tradicionais, já não são sustentáveis.

“Existe um apego enorme à operação histórica. Mas, em muitos casos, o lucro real está fora dela.”

E completa:

“Às vezes, evoluir exige fechar uma linha, desmontar uma lógica inteira e começar de novo. E isso é extremamente difícil para organizações que cresceram baseadas na estabilidade.”

Um “caos organizado” regulatório

Do ponto de vista jurídico, Ilo vê o momento atual como uma transição delicada — mas necessária.

“O novo marco regulatório da ANTT está criando um ambiente que eu chamaria de ‘caos organizado’. Ainda há incertezas, mas também há espaço para inovação.”

Para ele, a chave está na mudança de mentalidade.

“A empresa que vai sobreviver não é a que tem mais ativos físicos, mas a que tem maior velocidade organizacional. Capacidade de testar, ajustar e, principalmente, abandonar o que não funciona.”

No fim, Ilo resume o desafio do setor em uma provocação que, segundo ele, deveria estar presente em qualquer reunião de diretoria:

“Estamos otimizando o passado ou temos coragem de reimaginar a nossa malha do zero?”

E conclui:

“O transporte rodoviário brasileiro não vai desaparecer. Mas ele pode, sim, perder relevância. E isso depende menos da regulação e mais da disposição das próprias empresas em mudar.”

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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