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Quando o ônibus deixa a rodoviária para ganhar o passageiro


Embarques descentralizados desafiam a lógica tradicional do transporte rodoviário

ALEXANDRE PELEGI

Ganhar o passageiro antes mesmo de ele chegar à rodoviária passou a ser um novo eixo de disputa no transporte rodoviário interestadual. A autorização para embarques e desembarques fora dos terminais tradicionais, como no caso da ligação São Paulo–Rio de Janeiro, expõe como a chamada “primeira milha” se tornou um fator decisivo de competitividade entre as empresas.

Em conversa com o Diário do Transporte, o advogado e consultor especializado em regulação e operação do transporte rodoviário de passageiros, Ilo Löbel da Luz, avalia que a descentralização dos embarques altera de forma estrutural a lógica de planejamento do setor.

Essa autorização evidencia que a disputa pelo passageiro começa antes da viagem em si. Não é apenas o preço da passagem que está em jogo, mas o tempo e o esforço que o usuário precisa fazer para acessar o serviço”, afirmou.

A recente Decisão SUPAS nº 1.947, publicada em dezembro de 2025, autorizou a operação da linha São Paulo–Rio de Janeiro com pontos de embarque e desembarque fora das rodoviárias convencionais. A medida permitiu, por exemplo, a utilização de locais como shoppings e áreas integradas ao transporte urbano, aproximando o ônibus do cotidiano do passageiro.

Segundo Löbel da Luz, o modelo tradicional, baseado exclusivamente nas rodoviárias centrais, passou a gerar perdas de competitividade, especialmente nas grandes metrópoles.

Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o deslocamento até a rodoviária pode ser um gargalo maior do que o próprio trajeto rodoviário. Isso pesa na decisão do passageiro quando ele compara o ônibus com outros modais”, explicou.

Historicamente, o transporte rodoviário interestadual exigiu que o usuário se deslocasse até áreas centrais para iniciar a viagem. Com a intensificação dos congestionamentos e a fragmentação da mobilidade urbana, esse modelo passou a consumir tempo excessivo e reduzir a atratividade do ônibus frente ao transporte aéreo e a serviços por aplicativo.

Para o especialista, a utilização de terminais privados autorizados ou pontos de parada em regiões de alta densidade populacional representa uma mudança de paradigma.

O foco deixa de ser a operação estática, terminal a terminal, e passa a ser uma lógica de conveniência, capilaridade e leitura do território urbano”, disse.

Do ponto de vista regulatório, Löbel da Luz observa que os embarques descentralizados ampliam o leque de atributos competitivos das empresas, indo além da tarifa.

A empresa passa a competir também pelo custo-tempo da jornada. Reduzir a primeira milha significa entregar valor ao passageiro sem necessariamente mexer no preço da passagem”, avaliou.

Ele ressalta que esse movimento dialoga diretamente com o ambiente pós-marco regulatório do transporte rodoviário interestadual, no qual eficiência operacional, qualidade do serviço e experiência do usuário ganham maior relevância.

A sustentabilidade das operações futuras pode depender menos da infraestrutura centralizada das rodoviárias e mais da inteligência em desenhar rotas que façam sentido para o deslocamento urbano real”, afirmou.

Para Löbel da Luz, a descentralização não significa o esvaziamento das rodoviárias, mas uma reconfiguração do papel desses equipamentos.

As rodoviárias continuam importantes, mas não atendem igualmente todos os perfis de passageiros. O sistema passa a admitir soluções diferentes para mercados diferentes”, ponderou.

Na avaliação do consultor, embora ainda seja cedo para afirmar que esse será o modelo dominante, o movimento tende a se expandir.

Não parece uma exceção pontual. Tudo indica que estamos diante do início de um novo padrão de serviço, especialmente em mercados de alta demanda e forte concorrência”, concluiu.

O caso serve de alerta para gestores públicos, reguladores e operadores: a discussão sobre o futuro do transporte rodoviário passa, cada vez mais, pela integração com a mobilidade urbana e pela capacidade de conquistar o passageiro desde o primeiro quilômetro da viagem.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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