Publicado em: 17 de março de 2026

Debate no Transport Ticketing Global 2026, em Londres, mostra que bilhetagem por aproximação traz benefícios, mas exige modelo econômico próprio para o setor
ALEXANDRE PELEGI
O avanço dos pagamentos por aproximação diretamente nos validadores do transporte público — modelo conhecido como “open loop” — tem transformado a bilhetagem em cidades de todo o mundo, mas especialistas alertam que o transporte não pode simplesmente seguir as mesmas regras do comércio tradicional.
A avaliação foi feita durante o painel “Optimising the Economics of Open Loop Transit (Como tornar mais eficiente o modelo econômico dos pagamentos por aproximação no transporte)”, realizado no primeiro dia do Transport Ticketing Global 2026, evento internacional sobre tecnologia de bilhetagem realizado nos dias 17 e 18 de março em Londres.
O Diário do Transporte acompanha o evento diretamente da capital britânica.
O debate foi moderado por Jeroen Kok, líder global de pagamentos e mobilidade (Global Payment and Mobility Lead) da empresa de consultoria Rebel.
Participaram do painel:
- Jit Ng, gestor de interface com a indústria de pagamentos da Transport for London
- Lewis Clark, diretor executivo de informação e serviços de bilhetagem da Transport for NSW, órgão responsável pelo transporte público do estado australiano de Nova Gales do Sul (onde fica Sydney)
- Mark Langmead, diretor de receita e operação do sistema Compass — cartão eletrônico de pagamento das viagens no transporte público da região metropolitana de Vancouver, no Canadá — da TransLink (Metro Vancouver)
- Thea Fisher, diretora sênior de mobilidade urbana global da Visa
“Transporte não é varejo”
Durante o debate, Jit Ng, da Transport for London, afirmou que os sistemas de transporte possuem características muito diferentes do comércio tradicional e não podem simplesmente adotar o mesmo modelo econômico dos pagamentos.
“Nós não podemos repassar esse custo. Existe um elemento social no DNA do transporte público. Precisamos incentivar as pessoas a usar transporte coletivo para reduzir o número de carros nas cidades.”
Segundo ele, o transporte urbano tem uma missão pública que vai além da simples cobrança de tarifas.
“Quando você é um varejista, a fraude acontece na sua loja e faz parte do risco do negócio. No transporte público é diferente. Estamos lidando com milhões de pequenas transações diárias e com tarifas reguladas.”
Jit Ng reforçou que essa diferença é fundamental para compreender os desafios da bilhetagem moderna.
“Por isso eu sempre digo: transporte não é varejo. Se fosse varejo, não estaríamos tendo essa conversa.”
Pagamentos por aproximação crescem no transporte
O painel discutiu os impactos do modelo open loop, em que o passageiro utiliza diretamente cartões bancários, celulares ou relógios inteligentes para pagar a viagem, sem precisar adquirir um cartão específico do sistema de transporte.
Segundo Thea Fisher, da Visa, esse modelo vem crescendo rapidamente em todo o mundo.
A executiva afirmou que, apenas em 2025, foram registradas 2,4 bilhões de transações “tap-to-ride” — expressão usada para descrever o pagamento da viagem ao simplesmente aproximar (dar um “toque”) um cartão bancário ou dispositivo digital do validador do transporte — utilizando cartões Visa.
“Os passageiros estão escolhendo pagar com open loop quando têm essa opção. O comportamento do consumidor mostra claramente essa preferência”, disse.
Autoridades de transporte avaliam impactos do modelo
Durante o painel, Lewis Clark, da Transport for NSW, destacou que o pagamento por aproximação traz ganhos importantes para passageiros e operadores, mas não resolve todos os desafios do setor.
“No nível macro, acreditamos que tanto os passageiros quanto as autoridades de transporte se beneficiam do contactless. Mas ele não resolve tudo.”
Segundo ele, ainda existem questões operacionais e econômicas que precisam ser analisadas, especialmente em relação ao equilíbrio entre custos de pagamento e receitas tarifárias.
Sistema de Vancouver aposta em integração
Outro participante do painel foi Mark Langmead, da TransLink (Metro Vancouver), autoridade responsável pelo transporte público da região metropolitana de Vancouver, no Canadá.
Langmead afirmou que novas tecnologias de pagamento podem ajudar a ampliar o uso do transporte coletivo.
“Nosso objetivo é trazer para o transporte público pessoas que hoje usam carro. Cada novo passageiro melhora a distribuição de custos do sistema.”
Ele explicou que sistemas baseados em contas digitais permitem integrar transporte com eventos e atividades urbanas, como a compra de ingressos que já incluam o deslocamento até o local.
Transporte ajuda a popularizar o pagamento digital
Durante o debate, Jit Ng destacou que o transporte público também desempenha um papel importante no próprio desenvolvimento do mercado de pagamentos digitais.
Segundo ele, milhões de passageiros utilizam diariamente o transporte público e acabam criando o hábito de pagar por aproximação.
“Existe um grande efeito de aprendizagem. As pessoas começam usando o pagamento contactless no transporte e depois passam a usar o mesmo método em outros lugares.”
Novos meios de pagamento no horizonte
O executivo da Transport for London revelou ainda que o setor já discute novas formas de pagamento para o futuro da mobilidade urbana.
Entre os modelos em análise estão:
- cartões bancários (open loop)
- cartões próprios de transporte (closed loop)
- pagamentos via open banking
- moedas digitais de bancos centrais (CBDC)
Segundo ele, a TfL participa de discussões com o Bank of England para avaliar como moedas digitais poderiam funcionar em sistemas de transporte.
“Se queremos construir algo para a cidade e para seus cidadãos, precisamos considerar todos esses modelos.”
Cartões de transporte continuam relevantes
Apesar da expansão dos pagamentos por aproximação, especialistas ressaltaram que os cartões tradicionais de transporte ainda têm papel relevante.
Langmead apresentou durante o painel versões especiais do cartão Compass que devem ser usadas em eventos como a FIFA World Cup 2026.
“O closed loop ainda não morreu”, afirmou.
Segundo os especialistas, o mais provável é que os sistemas de transporte continuem adotando modelos híbridos, combinando cartões próprios com pagamentos bancários digitais.
Alexandre Pelegi, jornalista epsecializado em transportes
Cobertura direta de Londres


