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Transporte público vive abismo entre custos e tarifas e depende cada vez mais de subsídios, alerta diretor da Busvale


Rubens Fernandes afirma que perda de passageiros pagantes, aumento dos custos e atraso em repasses públicos colocam sustentabilidade do sistema em risco; sem subsídio, tarifa em São Paulo poderia chegar a cerca de R$ 13,49

ALEXANDRE PELEGI

O modelo de financiamento do transporte público urbano no Brasil atravessa um momento crítico. Entre a queda no número de passageiros pagantes, o aumento dos custos operacionais e a crescente dependência de subsídios públicos, especialistas do setor alertam para a necessidade de mudanças estruturais para garantir a sustentabilidade do serviço.

Em entrevista ao Diário do Transporte, Rubens Fernandes, diretor-executivo da Busvale (Associação das Empresas de Transporte Coletivo de Passageiros do Vale do Paraíba), analisa os desafios enfrentados pelas operadoras, a necessidade de previsibilidade nos repasses públicos e o papel que o novo Marco Legal do Transporte Público pode desempenhar na reorganização do financiamento do setor.

Leia a entrevista na íntegra:

Diário do Transporte — O transporte público brasileiro atravessa hoje um momento paradoxal. Como o senhor descreve esse cenário?

Rubens Fernandes — O transporte público vive um paradoxo claro. Ao mesmo tempo em que a mobilidade urbana é um direito social fundamental — porque garante acesso ao trabalho, à saúde e à educação —, o modelo que sustenta esse serviço está em uma encruzilhada. As empresas seguem fazendo um grande esforço para manter os ônibus circulando e oferecer qualidade, mas precisamos ser francos: o sistema já não se sustenta apenas com a receita da tarifa.

Diário do Transporte — O que mostram os dados mais recentes sobre a demanda do setor?

Rubens Fernandes — Os números do Anuário da NTU de 2024-2025 mostram uma leve recuperação da demanda após a pandemia, com crescimento de 9,8%. No entanto, quando olhamos para os passageiros pagantes, o aumento foi de apenas 4,7%. Mais grave ainda é o dado da última década: o setor perdeu cerca de 44% dos passageiros pagantes. Em 2024, apenas 56,7% dos usuários do sistema eram pagantes.Tarifa real pode ser muito maior sem subsídios

Diário do Transporte — Como essa redução de passageiros impacta o financiamento do sistema?

Rubens Fernandes — O impacto é direto. O transporte público no Brasil sempre dependeu muito da tarifa paga pelo passageiro. Mas com menos pagantes e custos elevados, essa conta simplesmente não fecha. Hoje, em cerca de 365 cidades brasileiras, os subsídios públicos cobrem em média apenas 30% dos custos operacionais. Isso é muito pouco quando comparado a cidades europeias, como Praga, onde o aporte público chega a cerca de 74%.

Diário do Transporte — Sem subsídio, quanto custaria a passagem em grandes cidades?

Rubens Fernandes — Se dependêssemos exclusivamente da tarifa para cobrir todos os custos — combustível, manutenção, salários e encargos —, a passagem em São Paulo, por exemplo, deveria custar cerca de R$ 13,49. Hoje o usuário paga cerca de R$ 5,30. Essa diferença entre a chamada tarifa técnica e a tarifa pública precisa ser coberta pelo poder público.

Atrasos em repasses impactam operação

Diário do Transporte — Além do volume de subsídios, há também problemas relacionados ao pagamento desses valores?

Rubens Fernandes — Sim. Em muitas cidades do interior ainda enfrentamos atrasos nos repasses. Diferentemente das grandes capitais, onde já existe maior previsibilidade, algumas prefeituras não fazem os pagamentos em dia ou demoram a reconhecer o reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos. Isso gera impactos imediatos na operação, porque os custos são diários: diesel precisa ser comprado todos os dias e salários precisam ser pagos dentro do prazo.

Caso de São José dos Campos mostra aumento do apoio público

Diário do Transporte — O senhor pode citar um exemplo concreto dessa realidade?

Rubens Fernandes — Em São José dos Campos, por exemplo, o subsídio chegou a R$ 144,7 milhões em 2025, um aumento de 66% em relação ao ano anterior. Desde outubro de 2020, já foram repassados cerca de R$ 425,6 milhões ao sistema. É importante deixar claro que esse aumento não representa lucro para as empresas, mas sim uma tentativa de recuperar anos de tarifas congeladas e acompanhar o aumento expressivo dos insumos.

Modernização e ônibus elétricos exigem segurança financeira

Diário do Transporte — A modernização da frota também pressiona o financiamento do sistema?

Rubens Fernandes — Sem dúvida. A frota brasileira cresceu cerca de 4,2% em 2025 e há um movimento cada vez maior em direção a tecnologias menos poluentes, como ônibus elétricos. Essas mudanças exigem investimentos elevados. Para que isso aconteça de forma consistente, precisamos de segurança jurídica e financeira.

Novo Marco Legal pode trazer estabilidade ao setor

Diário do Transporte — Que mudanças estruturais o setor considera essenciais para garantir a sustentabilidade do transporte público?

Rubens Fernandes — O setor aguarda com muita expectativa o novo Marco Legal do Transporte Público. Ele pode trazer mais transparência e, principalmente, um modelo de financiamento que não dependa apenas do humor político de cada gestão municipal. O transporte público é um motor da economia urbana. Quando ele falha, a cidade inteira sente os efeitos.

É fundamental entender que o subsídio ao transporte não é um favor ao sistema ou às empresas. Ele é, na verdade, o pagamento por um serviço essencial que já está sendo prestado à população. Honrar contratos e garantir previsibilidade financeira é o primeiro passo para que possamos oferecer um transporte público de qualidade. Sem sustentabilidade econômica, o futuro da mobilidade urbana continuará parado no ponto.


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

 



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