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Liminar suspende contrato de R$ 2,1 bilhões com a Acciona para obras da ligação viária Roberto Marinho–Imigrantes, zona Sul da capital paulista


Judicialização explodiu após reviravoltas no resultado da licitação — que elevou de cerca de R$ 1,8 bi para R$ 2,1 bi o valor do contrato — e levou ao questionamento dos critérios técnicos adotados pela Prefeitura de São Paulo

ALEXANDRE PELEGI

A Justiça de São Paulo concedeu uma liminar, na quinta-feira 22 de janeiro de 2026, que suspende os efeitos do contrato administrativo de R$ 2,1 bilhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e a empresa Acciona Construcción para as obras de implantação da ligação viária entre a Avenida Jornalista Roberto Marinho e a Rodovia dos Imigrantes, na Zona Sul da capital.

A decisão foi proferida no âmbito de um agravo de instrumento apresentado pela Álya Construtora (antiga Queiroz Galvão) e determinou o sobrestamento da execução do contrato nº 001/SPOBRAS/2026, assinado em 13 de janeiro deste ano, até o julgamento do mérito da disputa judicial.

Na prática, sobrestamento significa que a execução do contrato fica temporariamente suspensa, sem avanço físico ou financeiro da obra, até que o Judiciário decida a questão principal. A medida não anula o contrato nem define o vencedor da licitação, mas impede que o projeto avance enquanto há controvérsia judicial relevante.

Na liminar, o relator do caso afirma que a continuidade da obra, neste momento, poderia gerar efeitos irreversíveis. Segundo o magistrado,

a continuidade da execução contratual, antes da estabilização do contraditório e da colheita das informações da autoridade impetrada, pode conduzir à consolidação de situações fáticas de difícil reversão”.

O Tribunal destaca ainda que o empreendimento possui elevada relevância econômica e urbana, o que reforça a necessidade de prudência. Conforme a decisão, trata-se de um contrato

de elevada expressão econômico-financeira, de impacto potencialmente relevante sobre o erário, visto que se remete a obra de grande porte, cujas dimensões e implicações transcendem os interesses patrimoniais das partes, alcançando diretamente a coletividade e a organização social e urbana”.

Suspensão por cautela, não julgamento de mérito

O relator faz questão de registrar que a liminar não antecipa o julgamento final da licitação, mas se baseia no poder geral de cautela do Judiciário. De acordo com o despacho,

a suspensão cautelar dos efeitos da decisão agravada, bem como do prosseguimento da execução contratual, revela-se medida fincada em juízo de prudência, voltada à proteção do interesse público primário e à preservação da utilidade do julgamento colegiado”.

A decisão acrescenta que, neste estágio processual, ainda será necessário aprofundar a análise sobre os limites das soluções técnicas no regime de contratação integrada, bem como sobre os impactos econômicos, urbanísticos e sociais do empreendimento.

Reviravoltas explicam judicialização

A liminar foi concedida poucos dias após a Prefeitura de São Paulo declarar a Acciona vencedora da licitação, após sucessivas mudanças no resultado do certame, como mostrou o Diário do Transporte em 16 de janeiro.

Inicialmente, a proposta da Álya havia obtido a melhor pontuação técnica e menor preço. Após recursos administrativos, a comissão de licitação da SPObras alterou o entendimento, desclassificou a empresa e declarou vencedora a Acciona, cuja proposta ficou em torno de R$ 2,1 bilhões, cerca de R$ 300 milhões acima da oferta inicialmente classificada em primeiro lugar, estimada em aproximadamente R$ 1,8 bilhão.

Essa mudança de critérios técnicos e a elevação do valor do contrato estão no centro da judicialização do processo.

Projeto estratégico para a Zona Sul

O empreendimento, denominado Complexo Viário Roberto Marinho, é considerado uma das intervenções mais relevantes em infraestrutura viária previstas para São Paulo nos próximos anos. O contrato abrange, sob o regime de contratação integrada, elaboração dos projetos básico e executivo e a execução das obras para a ligação da Avenida Jornalista Roberto Marinho à Rodovia dos Imigrantes, incluindo:

  • Extensão viária de aproximadamente 3,7 km a 4,7 km, com três faixas por sentido e infraestrutura cicloviária e para motocicletas;

  • Construção de três viadutos e dois túneis, incluindo um túnel de cerca de 460 m de extensão;

  • Obras de macrodrenagem e reconfiguração do canal do Córrego Água Espraiada;

  • Implantação de um parque linear com cerca de 314 mil m² de áreas verdes, áreas de lazer e trajetos para pedestres e ciclistas;

  • Prazo contratual de 48 meses para conclusão, a partir da ordem de serviço.

O complexo viário é considerado estratégico para desafogar o tráfego entre a Zona Sul da capital e o Sistema Anchieta-Imigrantes, melhorando a conexão com as principais rodovias que ligam São Paulo ao litoral paulista e à Baixada Santista.

O Tribunal de Justiça determinou a intimação das demais licitantes, o envio dos autos à Procuradoria de Justiça e a solicitação de informações ao juízo de primeira instância. O contrato permanecerá suspenso até o julgamento das questões centrais do agravo de instrumento.



Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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