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Licitação intermunicipal do RJ deve mobilizar cerca de mil ônibus novos e abrir espaço para elétricos e GNV


Licitação intermunicipal do RJ deve mobilizar cerca de mil ônibus novos e abrir espaço para elétricos e GNV

ALEXANDRE PELEGI

A nova licitação do transporte intermunicipal de passageiros do Estado do Rio de Janeiro foi estruturada para criar escala relevante de renovação de frota e induzir, de forma progressiva, a adoção de matrizes energéticas de baixa emissão. O modelo, conduzido pelo DETRO-RJ, prevê a incorporação de cerca de mil ônibus novos ao sistema e a abertura de mercado para veículos elétricos, movidos a GNV e outras tecnologias, conciliando transição energética, viabilidade econômica e segurança regulatória para operadores e fornecedores.

Ao estabelecer exigências graduais de frota nova e parâmetros claros para a adoção de tecnologias de baixa emissão, o edital sinaliza previsibilidade regulatória e volume de demanda capazes de destravar investimentos de médio e longo prazo, envolvendo operadores, fabricantes e empresas de infraestrutura energética.

Transição energética sem solução única

Segundo Danilo Menezes, diretor técnico do Detro-RJ, a estratégia parte do reconhecimento de que não existe uma tecnologia única capaz de atender toda a malha intermunicipal fluminense.

“Estamos falando de uma mudança planejada e progressiva de matriz energética, com soluções diferentes para realidades diferentes. O Estado do Rio de Janeiro tem linhas longas, topografia variada e níveis distintos de infraestrutura, o que exige uma abordagem técnica e economicamente viável”, afirmou.

Ele destacou que a transição precisa ser tratada como política pública estruturada. “Não adianta pensar apenas no veículo. A mudança de matriz energética exige governança, planejamento e investimento em infraestrutura”, disse.

Testes operacionais com ônibus elétricos

Para embasar o desenho do edital com dados reais, o Detro-RJ realizou estes práticos com ônibus elétricos na linha Nilópolis–Barra da Tijuca, entre novembro de 2025 e janeiro de 2026.

“O veículo rodou, em média, 285 quilômetros por dia, com consumo de cerca de 72% da bateria. O retorno dos passageiros foi muito positivo, principalmente em relação ao conforto, ao baixo ruído e ao ar-condicionado”, relatou Menezes.

O diretor técnico ponderou, porém, que os testes também revelaram desafios. “Identificamos limitações de autonomia, tempo de recarga e a necessidade de novos testes em condições específicas, como dias de chuva, porque estamos falando de segurança operacional”, explicou.

Experiência com ônibus movidos a GNV

Os testes com ônibus a GNV foram realizados na Região Serrana, no trecho entre Paulo de Frontin e Paracambi, entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. A operação acumulou quase 12 mil quilômetros rodados e mais de 11 mil passageiros transportados.

“O desempenho foi positivo, inclusive em trechos de serra, com destaque para torque, agilidade e redução de emissões”, afirmou Menezes.

Apesar do bom desempenho técnico, o diretor técnico destacou que o principal entrave do GNV hoje é econômico. “O ônibus paga o mesmo preço do GNV que o automóvel particular, enquanto o diesel conta com incentivo fiscal do Estado. Isso encarece a operação e dificulta a adoção dessa tecnologia sem políticas públicas específicas”, disse.

Exigências do edital e frota de baixa emissão

No desenho preliminar do edital, o Detro-RJ prevê que, apenas na região metropolitana, pelo menos 200 veículos utilizem matrizes energéticas de baixa emissão. Além disso, haverá a obrigação de que, no mínimo, 20% da frota total seja composta por ônibus novos, o que representa cerca de mil veículos.

“A ideia é criar escala suficiente para renovar a frota e permitir uma transição gradual, sem comprometer a continuidade do serviço”, explicou Menezes.Infraestrutura e política pública

O Detro-RJ reconhece que a adoção dessas matrizes depende diretamente de investimentos em infraestrutura. No caso dos ônibus elétricos, o desafio está na implantação de redes de recarga compatíveis com a escala prevista. Para o GNV, o entrave central é a ausência de diferenciação tarifária para o transporte público.

“Transporte público também é serviço essencial. Estamos falando do deslocamento diário das pessoas, e isso precisa ser tratado como política pública”, afirmou o diretor técnico.

Cronograma e próximos passos

O processo licitatório está em análise na Procuradoria-Geral do Estado e deverá seguir para o Tribunal de Contas. A expectativa do Detro-RJ é lançar os editais da região metropolitana na primeira quinzena de março.

“Essa licitação vai dar segurança jurídica ao operador, previsibilidade ao mercado e instrumentos para o Estado cobrar qualidade do serviço”, disse Menezes.

Pela escala de frota envolvida e pelo uso da licitação como instrumento de política pública, o modelo em construção no Rio de Janeiro tende a ser acompanhado de perto por outros estados.

“A gente entende que esse processo pode se tornar uma referência nacional, justamente por combinar transição energética com viabilidade econômica e respeito à realidade operacional”, concluiu o diretor técnico.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



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