Publicado em: 31 de março de 2026

Com tensão no Oriente Médio elevando preços de combustíveis, empresa projeta participação de elétricos acima de 30% antes de 2030 e aponta energia como alternativa mais previsível
ALEXANDRE PELEGI
A escalada das tensões no Oriente Médio, com reflexos diretos sobre o preço do petróleo e seus derivados, reacende um velho problema para o transporte: a volatilidade do preço do diesel. Em um setor altamente dependente desse insumo — especialmente no transporte rodoviário de passageiros e de cargas —, qualquer instabilidade internacional rapidamente se traduz em aumento de custos operacionais no Brasil.
Esse cenário, no entanto, pode acelerar uma mudança estrutural. A pressão sobre os combustíveis fósseis abre espaço para alternativas mais previsíveis — e é justamente nesse ponto que a mobilidade elétrica ganha força.
De acordo com análise da Livoltek, fabricante de inversores, sistemas de armazenamento e carregadores para veículos elétricos, a recente alta do diesel já começa a redesenhar o debate sobre mobilidade no país.
A empresa avalia que a eletrificação passa a ser vista não apenas como solução ambiental, mas principalmente econômica.
Em leitura direta do cenário, o diretor comercial da Livoltek Mobility para a América Latina, Flávio Pimenta (foto abaixo), afirma que a energia elétrica oferece uma vantagem estrutural frente aos combustíveis fósseis, sobretudo por não estar sujeita às mesmas crises internacionais.

“Quando olhamos para o cenário atual, marcado por tensões geopolíticas que impactam diretamente o preço do diesel, fica evidente que a eletricidade surge como uma alternativa mais previsível e estável. Diferentemente dos combustíveis fósseis, cuja formação de preço responde rapidamente a crises internacionais, a energia elétrica — especialmente com geração local e contratos no mercado livre — permite maior controle e planejamento de custos para operadores e empresas”, afirma Pimenta.
“A eletrificação deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ser uma decisão econômica estratégica. Em um ambiente de alta volatilidade, a previsibilidade energética se torna um diferencial competitivo relevante”, acrescenta.
A consequência direta desse movimento pode ser uma aceleração significativa da adoção de veículos elétricos no Brasil.
Segundo a Livoltek, a participação de elétricos nas vendas — estimada em cerca de 30% para 2030 — pode ser atingida antes do prazo, ao menos no segmento de veículos leves.
A avaliação é de que o crescimento será “exponencial”, impulsionado por três fatores principais: pressão econômica sobre combustíveis fósseis; expansão da infraestrutura de recarga; e avanço da produção local e acesso a financiamento.
A empresa destaca que a evolução da infraestrutura de recarga tem reduzido uma das principais barreiras à eletrificação.
Há uma tendência clara de segmentação: carregadores rápidos (DC) em redes públicas e semipúblicas; e carregamento residencial (AC) como padrão no uso cotidiano.
Além disso, a nacionalização de equipamentos — inclusive com produção no Brasil — permite acesso a linhas como o FINAME, do BNDES, diluindo o investimento inicial e tornando os projetos mais viáveis.
Esse ponto é estratégico: o custo inicial ainda é um dos principais entraves à adoção de veículos elétricos.
Apesar do otimismo no segmento de veículos leves, a Livoltek reconhece que a eletrificação do transporte público urbano segue um ritmo mais lento.
O motivo está menos na tecnologia e mais na estrutura do setor: forte dependência de políticas públicas, decisões tarifárias e subsídios e resistência institucional à mudança.
Ou seja, enquanto o mercado privado reage rapidamente ao preço do diesel, o transporte coletivo ainda depende de decisões regulatórias e planejamento de longo prazo.
No fundo, a leitura da Livoltek aponta para uma mudança mais ampla: a transição energética passa a ser guiada não apenas por sustentabilidade, mas por previsibilidade econômica.
Em um ambiente global instável, a eletrificação deixa de ser apenas tendência e passa a ser estratégia de mitigação de risco.
Se o cenário de combustíveis caros persistir — especialmente em meio a crises internacionais —, o Brasil pode ver uma aceleração da mobilidade elétrica acima do que indicavam as projeções mais conservadoras.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


