Publicado em: 19 de maio de 2026

Diversas confederações defenderam que redução de jornada esteja prevista em negociações coletivas sem alterações na Constituição. Pode faltar ônibus para a população e tarifas vão aumentar, dizem donos de viações
ADAMO BAZANI
Empresários de diversas confederações que integram diferentes setores da economia estiveram na Câmara dos Deputados, em Brasília, e se reuniram em audiência pública com os parlamentares da comissão especial que finaliza o texto do projeto da redução da jornada de trabalho de 44 horas semanais, o chamado “Fim da Escala 6 x 1”. A estimativa é que um texto inicial para o andamento da tramitação da Câmara seja apresentado entre esta quarta-feira, 20 de maio de 2026, e quinta-feira (21).
Diversas confederações defenderam que redução de jornada esteja prevista em negociações coletivas sem alterações na Constituição
Os empresários tentaram convencer os deputados de que o Fim da Escala 6 x 1 pode trazer problemas para vários setores, em especial o de transportes.
No encontro que ocorreu nesta segunda-feira (18), o presidente da Confederação Nacional do Transporte, Vander Costa, disse que, com a redução de jornada, o setor de transporte teria de contratar mais de 250 mil profissionais, entre motoristas de ônibus, caminhoneiros, mecânicos, borracheiros, funileiros e fiscais, por exemplo.
No entanto, já há falta de mão-de-obra para muitas destas ocupações. Para Costa, reduzir a jornada agravaria esta situação.
Um dos exemplos citados por Costa foi sobre os ônibus urbanos.
Para o representante da entidade empresarial, a falta de mão de obra para cumprir as novas jornadas não apenas prejudicaria as empresas, mas a população que depende de transportes.
Isso porque, ainda segundo o presidente da CNT, há limitações de carga horária e horas extras mais severas sobre a atividade de transportes, inclusive com leis específicas sobre os intervalos entre uma jornada e outra de trabalho.
Assim, pode haver até mesmo falta de ônibus para a população porque não haverá motoristas suficientes para dirigir estes veículos.
“No caso específico do transporte, a gente tem que andar com o ônibus urbano sete dias por semana, não há como tirar o direito do cidadão”, disse. Vander Costa sugeriu uma transição de “uma hora a menos a cada ano, durante quatro anos”, segundo a Agência Câmara de Notícias
Nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, o Diário do Transporte mostrou que empresas de ônibus urbanos e metropolitanos, reunidas na NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), emitiram uma nota oficial destacando que o fim da Escala 6 x 1 pode resultar em tarifas mais altas por causa do aumento dos custos com mão-de-obra, que deve ser em torno de 33%.
Ainda de acordo com a entidade, além da falta de mão-de-obra; o setor vai enfrentar outra questão: para complementar renda, muitos motoristas de ônibus vão trabalhar mais tempo com aplicativos de carros particulares como 99 e Uber, o que já acontece e seria agravado, podendo resultar em profissionais mais cansados na hora der assumir a direção dos coletivos, ampliando o risco de acidentes e mau atendimento aos passageiros.
A advogada especializada em risco empresarial, Liana Variani, disse que empresas e trabalhadores devem neste “início da reta final no Congresso” acompanhar cada vez mais de perto a tramitação da proposta.
“Há direitos fundamentais em que simplesmente o negociado não é considerado acima do legislado. Realmente, cada setor tem uma realidade diferente. Para algumas atividades, na prática, já não existem jornadas de 44 horas semanais, mas em outros, em especial as de funcionamento ininterrupto, qualquer alteração vai afetar e muito a realidade de trabalhadores e empregadores. Apesar de posições opostas, o consenso dos debates é um caminho interessante” – disse
Relembre a reportagem completa:
Centrais sindicais ligadas aos trabalhadores de transportes apoiam a redução da jornada e dizem que, ao contrário do que os empresários alegam, não vai elevar a crise da falta de mão de obra no setor.
O presidente da CNTTL – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística, Paulo João Estausia, em comunicado da entidade, acredita que o fim da escala 6 x1 pode gerar 4,5 mil empregos somente no transporte urbano logo de início
“Além da abertura de vagas em si, reduzir a carga sem reduzir os salários, vai melhorar os ganhos e impactar positivamente na vida do trabalhador em transportes, tornando a profissão mais interessante. Hoje as altas jornadas, os baixos salários e as rotinas estafantes estão entre os motivos que justificam essa falta de mão de obra alegada pelos empresários” – disse.
O argumento comum entre os empresários é que diferentes setores têm realidades específicas e poderiam enfrentar aumento de custos, dificuldades operacionais e impactos sobre empregos e serviços.
NEGOCIAÇÕES COLETIVAS NÃO RESOLVEM, ARGUMENTA AUTOR DE PEC:
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), autor da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) número 221, de 2019, que reduz gradualmente, ao longo de dez anos, a atual jornada de 44 horas semanais para 36 horas, rebateu o argumento dos empregadores em favor apenas de negociações e acordos coletivos locais. Segundo ele, esse modelo atual não foi capaz de proteger os profissionais mais vulneráveis.
“A convenção coletiva continuará forte, mas servirá para as empresas e sindicatos combinarem os formatos das escalas dentro do limite máximo de 40 horas semanais.”, disse.
De acordo com a Agência Câmara de Notícias, veja o que argumentaram algumas confederações de empresários:
INDÚSTRIA:
O diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Alexandre Furlan, reduzir a jornada sem corte salarial elevaria os custos de produção e os preços ao consumidor. “A redução sustentável da jornada deveria ser consequência de ganhos de produtividade e não um ponto de partida”, disse.
BENS E SERVIÇOS:
Luciana Rodrigues, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, afirmou que o comércio, hotéis, bares e restaurantes têm funcionamento contínuo e demandas variáveis, o que exige escalas flexíveis. “Hoje não temos uma média de 44 horas semanais, mas sim de 39 horas semanais. E como que a gente atinge essa média? É pelas negociações coletivas.”, observou.
TRANSPORTE:
Presidente da Confederação Nacional do Transporte, Vander Costa disse que, com a redução de jornada, o setor de transporte teria de contratar mais de 250 mil profissionais em um cenário de pleno emprego. “No caso específico do transporte, a gente tem que andar com o ônibus urbano sete dias por semana, não há como tirar o direito do cidadão”, disse. Ele sugeriu uma transição de “uma hora a menos a cada ano, durante quatro anos”.
AGRICULTURA E PECUÁRIA:
Pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Rodrigo Mello disse que as propostas em análise desconsideram as necessidades do campo, onde atividades ligadas a seres vivos não podem ser interrompidas. “A gente não vai conseguir aumentar a produtividade por meio de um decreto, de uma lei ou de uma emenda à Constituição. Então, a premissa está invertida”, criticou.
SAÚDE:
Representando a CNSaúde, Genildo de Albuquerque Neto propôs aos deputados uma transição gradual a fim de evitar impactos no atendimento de saúde, além de flexibilizações para acomodar escalas de 12 por 36 horas, como, por exemplo, permitir a compensação de horas entre semanas e a não consecutividade das folgas.
EDUCAÇÃO:
Pelos estabelecimentos privados de ensino, Elizabeth Guedes disse que com a redução de jornada as escolas enfrentariam dificuldades para cumprir os 200 dias letivos exigidos por lei, especialmente as que utilizam sábados para aulas do ensino médio. “Falar em reduzir carga de trabalho, mantendo o salário, sem fazer um planejamento objetivo, é fazer poesia, não é fazer política trabalhista”, declarou.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


