Parceria entre startup de mobilidade e empresa de bilhetagem aposta no WhatsApp e em inteligência artificial para simplificar a experiência do usuário no transporte coletivo
ALEXANDRE PELEGI
A transformação digital do transporte público brasileiro começou, durante muitos anos, pelos bastidores. Sistemas de planejamento operacional, gestão de frota, bilhetagem eletrônica, monitoramento e redução de custos sempre ocuparam o centro das atenções tecnológicas do setor. Agora, porém, o foco começa a mudar de lugar: sai a operação como único eixo e entra o passageiro como protagonista da experiência.
É nesse contexto que surge a parceria entre a Prodata e a Vai de Bus, startup especializada em soluções conversacionais para mobilidade urbana via WhatsApp.
A proposta é simples na aparência, mas profunda na lógica: permitir que o passageiro resolva praticamente toda sua relação com o transporte público dentro do aplicativo mais utilizado pelos brasileiros.
“Hoje a Vai de Bus é uma startup dedicada ao segmento de mobilidade, que desenvolveu um software que permite ao usuário do transporte público fazer a recarga dos cartões através de uma jornada pelo WhatsApp”, explica André Garrido, um dos fundadores da empresa.
Segundo ele, a presença do aplicativo no cotidiano das pessoas foi determinante para o desenvolvimento da solução.
“A estatística diz que 99% dos celulares do Brasil têm WhatsApp instalado. E outro dado interessante é que as pessoas abrem o aplicativo mais de 30 vezes por dia. Então entendemos que nossa tecnologia precisava estar onde o usuário já está.”
Hoje a operação da Vai de Bus já está presente em cidades como São Paulo, Cuiabá, Manaus, Ribeirão Preto e na região de Campinas, por meio da operação da Bus+.
Muito além da recarga
O que começou como um canal para compra de créditos rapidamente ganhou novas funções.
Segundo Kleber Rocha, diretor comercial da Prodata, a integração passou a permitir também bloqueio de cartões perdidos, consulta de informações, cadastro de usuários, suporte operacional e atendimento automatizado.
“Quando começamos a conversar mais com o cliente na ponta, fomos entendendo quais eram as dificuldades dele. E percebemos que poderíamos usar o canal para muito mais do que apenas vender crédito eletrônico.”
A lógica por trás da solução passa pela eliminação de fricções. O passageiro não precisa baixar mais um aplicativo, ocupar memória do celular ou aprender uma nova interface. Ele simplesmente conversa.
“Hoje o ser humano não quer operar sistemas. Ele quer resolver o problema dele. Então, quando conseguimos esconder a tecnologia e transformar isso numa experiência simples, fluida e natural, o usuário passa a utilizar aquilo com prazer”, resume Garrido.
A pandemia mudou o eixo da tecnologia no transporte
Os executivos reconhecem que a pandemia de Covid-19 teve papel decisivo nessa mudança de mentalidade do setor.
“O Covid mudou completamente nossa forma de pensar tecnologia. A gente entendeu que precisava facilitar a vida do passageiro e reduzir o caminho entre ele e a solução do problema”, afirma Kleber Rocha.
Na avaliação deles, o passageiro deixou de ser apenas destinatário final da operação e passou a ocupar posição central na estratégia das empresas de mobilidade.
“Antes a tecnologia era muito voltada ao B2B, aos operadores e empresários. Hoje existe uma preocupação muito maior com a experiência do usuário final”, diz André Garrido.
A Vai de Bus inclusive criou um slogan que sintetiza essa visão: “A viagem começa na compra”.
“Se eu entrego uma solução simples, rápida e agradável, o usuário gosta, volta a usar e cria hábito”, explica Garrido.
Vitória: inteligência artificial para mobilidade
A evolução seguinte da plataforma foi a incorporação de inteligência artificial.
Em 2025, a Vai de Bus lançou a “Vitória”, agente de IA cujo nome é uma sigla para “Vendas Inteligentes de Transporte, Organização de Reserva e Inteligência Artificial”.
Segundo a empresa, a ferramenta funciona como um orquestrador de toda a jornada conversacional do usuário.
“Hoje ela já responde dúvidas, orienta o passageiro, guarda dados do cartão para facilitar novas compras e organiza toda a experiência de atendimento”, explica Garrido.
A ideia, segundo ele, é que o usuário literalmente “converse com a mobilidade”.
O desafio da simplicidade
Ao longo da entrevista, os executivos destacam um ponto considerado essencial: praticidade.
Num cenário em que os celulares disputam espaço com dezenas de aplicativos e em que muitos usuários possuem aparelhos simples ou planos de dados limitados, o WhatsApp surge como um canal quase universal.
“Hoje, mesmo quem não tem internet disponível continua com acesso ao WhatsApp em muitos planos pré-pagos. Isso cria uma capilaridade gigantesca”, observa Garrido.
Além disso, existe uma barreira cultural importante. “Ninguém precisa ensinar alguém a usar WhatsApp”, ressalta Garrido.
O transporte precisa ficar mais fácil para quem não é usuário habitual
A discussão também avançou para um tema estratégico do setor: a perda de passageiros do transporte público.
Durante a conversa, surgiu uma provocação importante: o sistema brasileiro ainda é complexo demais para quem não usa transporte todos os dias.
Turistas, passageiros ocasionais ou pessoas vindas de outras cidades frequentemente encontram dificuldades para entender tarifas, meios de pagamento, cartões e formas de acesso ao sistema.
A comparação inevitável acabou sendo com cidades europeias, onde o pagamento aberto — diretamente com cartões bancários ou wallets digitais — já tornou a entrada no sistema praticamente invisível.
Os executivos reconhecem que esse caminho tende a avançar também no Brasil.
“Talvez no futuro o usuário nem fale mais em recarga. Ele simplesmente vai usar o meio de pagamento que já possui”, comenta Garrido.
Nesse cenário, segundo ele, o papel da Vai de Bus passa a ser justamente organizar a experiência dessa jornada digital: “Independentemente se será QR Code, wallet, cartão bancário ou crédito em bilhete, nosso trabalho é tornar essa experiência simples dentro do WhatsApp.”
Tecnologia como porta de entrada para o transporte público
A visão defendida pela parceria entre Prodata e Vai de Bus aponta para algo maior do que apenas modernizar a bilhetagem.
Existe uma percepção crescente no setor de que a tecnologia pode ser decisiva para reduzir barreiras de entrada no transporte coletivo — especialmente para novos usuários.
Se durante décadas a inovação esteve concentrada nos bastidores operacionais, agora ela começa a migrar para a relação direta com o passageiro.
E talvez esse seja justamente o principal desafio do transporte público contemporâneo: não apenas transportar pessoas, mas tornar o acesso ao sistema tão intuitivo e natural quanto enviar uma mensagem no WhatsApp.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


