Publicado em: 15 de maio de 2026

Painel reuniu também Paula Aluani, do Waze e Google Maps para América Latina, e Roberto Speicys, fundador da Scipopulis e membro da UITP; debate destacou integração digital, governança urbana e nova lógica do transporte público conectado
ALEXANDRE PELEGI
A transformação digital da mobilidade urbana passa cada vez mais pela capacidade das cidades de produzir, interpretar e compartilhar dados em tempo real. Esse foi o principal eixo da apresentação de Cassiano Rusycki, CEO da Mais.Mobi, empresa da Prodata, durante painel sobre cidades inteligentes, governança urbana e integração digital dos sistemas de transporte. O debate contou ainda com a participação de Paula Aluani, head de Parcerias Geográficas para a América Latina do Waze e Google Maps, e de Roberto Speicys, fundador da Scipopulis e membro da UITP (União Internacional de Transportes Públicos).
Ao longo da apresentação, Rusycki defendeu o conceito de “cidade que fala”, em que diferentes sistemas urbanos passam a gerar informações capazes de orientar planejamento, investimentos, operação do transporte e experiência do cidadão. Segundo ele, a digitalização acelerada da mobilidade urbana criou uma situação inédita na história das cidades: a possibilidade de monitorar em tempo real desde o fluxo do transporte público até acidentes, falhas viárias, obras, deslocamentos e padrões de comportamento urbano.
“Hoje, vivendo um mundo cada vez mais interligado às funções, tudo que foi reportado a cidade tem acesso. Ela consegue saber se tem buraco, acidente, semáforo quebrado. O dado tem muito valor e muita coisa pode ser feita para ajudar o urbano”, afirmou.
O executivo destacou que plataformas digitais e sistemas integrados permitem transformar essas informações em serviços diretamente acessíveis ao cidadão. Entre os exemplos citados estão as informações em tempo real no transporte público, integração com aplicativos de navegação, cálculo de rotas, monitoramento de trânsito, meios digitais de pagamento e integração futura da bilhetagem em carteiras digitais. “A gente quer entregar também no Wallet, trazer ticket do transporte, fazer cada vez mais integração para facilitar a vida das pessoas”, explicou.
Um dos pontos centrais da fala de Rusycki foi a mudança de lógica no transporte público. Para ele, o setor deixa gradualmente de enxergar o usuário apenas como “passageiro” e passa a compreendê-lo como um cliente conectado digitalmente em múltiplas plataformas. “Eu falo muito do passageiro, mas acho que no futuro a gente tem o cliente. O cliente do transporte é o mesmo que usa aplicativo de delivery, Google Maps, banco digital e varejo”, afirmou.
Na visão do executivo, essa transformação exige que as cidades e os operadores passem a trabalhar mobilidade de forma integrada, considerando diferentes perfis geracionais e múltiplas formas de deslocamento. “Hoje estamos vivendo cinco gerações ao mesmo tempo. Então precisamos traduzir facilidade para quem tem pouca idade e para quem tem muita idade também”, disse. Segundo ele, o cidadão passa a tomar decisões de deslocamento comparando tempo de viagem, custo, segurança, conveniência e integração entre modais, numa lógica cada vez mais próxima da experiência digital cotidiana.
Rusicky observou ainda que essa discussão acompanha um movimento global de transformação digital da mobilidade. Em março deste ano, o executivo participou do Transport Ticketing Global 2026, em Londres, um dos principais fóruns internacionais sobre bilhetagem, integração e tecnologia para transportes públicos. No evento, segundo ele, ganharam força especialmente os debates sobre integração digital dos sistemas de mobilidade, confiança no uso de dados e experiência do usuário no transporte urbano conectado.
Durante o painel, Roberto Speicys contextualizou historicamente a relação entre cidades e coleta de informações, lembrando que governos utilizam dados populacionais e territoriais desde a formação das primeiras cidades organizadas. Segundo ele, a própria estatística nasceu como ferramenta de Estado para melhorar a gestão urbana. “Estatística é a ciência do Estado”, destacou Speicys ao explicar que a evolução tecnológica apenas ampliou a capacidade das cidades de compreender fluxos urbanos e organizar políticas públicas.
O especialista ressaltou que a mobilidade urbana foi uma das áreas que mais rapidamente se digitalizou nas últimas décadas, passando a gerar enormes volumes de informações por meio de GPS embarcado, bilhetagem eletrônica, pagamentos digitais, sensores, aplicativos e monitoramento operacional em tempo real. Na avaliação dos debatedores, esses dados permitem reorganizar linhas, identificar gargalos urbanos, construir mapas de calor, direcionar investimentos e ampliar eficiência operacional.
Paula Aluani destacou o papel das plataformas digitais na integração entre dados urbanos e experiência do usuário. Segundo ela, ferramentas como Waze e Google Maps passaram a atuar em colaboração crescente com cidades e órgãos públicos para compartilhar informações sobre obras, incidentes, alterações viárias, equipamentos urbanos e mobilidade em tempo real. A executiva ressaltou ainda que os dados compartilhados ajudam não apenas na navegação, mas também no turismo, na economia local e na visibilidade de pequenos negócios. “Tudo isso que é compartilhado com a gente, conseguimos passar também para os cidadãos”, afirmou.
Apesar do avanço tecnológico, os participantes ressaltaram que a transformação digital das cidades depende diretamente de governança e vontade política. Segundo Rusycki, o Brasil já possui experiências relevantes em integração tecnológica e gestão inteligente da mobilidade, embora muitas cidades ainda enfrentem dificuldades para integrar sistemas e compartilhar dados entre órgãos públicos e operadores.
“O mais positivo é a pluralidade de atores sentando na mesma mesa. Se houver vontade política e governança, é possível organizar melhor a cidade”, concluiu.
O painel reforçou uma tendência global observada em fóruns internacionais de mobilidade: o transporte urbano deixa de ser apenas deslocamento físico e passa a funcionar como uma plataforma integrada de dados, pagamentos, serviços e experiência digital do cidadão.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


