Publicado em: 24 de abril de 2026

Etapa RS consolida movimento nacional idealizado por Luana Fleck e Carina Porto Silva Girondo, ampliando protagonismo feminino em um setor ainda marcado pela baixa participação das mulheres
ALEXANDRE PELEGI
O transporte de passageiros vive um processo de transformação silencioso — e cada vez mais estruturado — no Brasil. No dia 23 de abril de 2026, esse movimento ganhou mais um capítulo relevante com a realização da etapa gaúcha do Conexão Feminina no Transporte, dentro da fábrica da Marcopolo, um dos maiores polos industriais do setor no mundo.
Mais do que um encontro, o evento reforça a consolidação de uma agenda que combina diversidade, qualificação técnica e visão de futuro em um setor historicamente dominado por homens.
Um movimento que deixa de ser evento para virar plataforma
Criado em 2025, o Conexão Feminina no Transporte nasceu com uma proposta simples, mas ambiciosa: deixar de ser apenas um espaço de encontros pontuais e se transformar em uma plataforma contínua de desenvolvimento profissional, troca de experiências e fortalecimento de redes.
Idealizado por Luana Fleck e Carina Porto Silva Girondo, o movimento conecta mulheres que já ocupam posições de liderança com aquelas que buscam espaço no setor — da operação à gestão, passando por áreas como manutenção, engenharia e tecnologia.
Na prática, trata-se de um reposicionamento estratégico: o transporte passa a ser visto também como um ambiente de desenvolvimento de talentos femininos, e não apenas como um setor operacional.
Dentro da fábrica: o transporte visto por outro ângulo
A escolha da Marcopolo como palco da etapa RS não foi casual. Ao levar as participantes para dentro da cadeia produtiva — do design à pista de testes — o evento rompe uma barreira histórica de acesso ao “coração industrial” do transporte.
A programação incluiu:
- Visita ao Museu Memória Marcopolo
- Passagem pelo Centro de Treinamento (CTM) e Espaço Envolver
- Conhecimento da fábrica de chassis e da divisão Marcopolo Rail
- Apresentações das equipes de Engenharia e Design
- Visita à linha de produção e à pista de testes
A experiência imersiva, pouco comum até mesmo para profissionais do setor, permite uma mudança de perspectiva: o transporte deixa de ser apenas operação e passa a ser compreendido como indústria, inovação e estratégia.
Diversidade como agenda estratégica — e não simbólica
Ao abrir sua estrutura para o evento, a Marcopolo sinaliza algo que vem se tornando tendência global: diversidade deixou de ser discurso institucional para se tornar componente de competitividade.
A iniciativa evidencia que ampliar a presença feminina não é apenas uma pauta social, mas uma estratégia de inovação — especialmente em um setor que enfrenta desafios como transição energética, digitalização e novas formas de mobilidade.
O tamanho do desafio: presença feminina ainda é baixa
Apesar dos avanços, os números mostram que o caminho ainda é longo. Dados da Confederação Nacional do Transporte indicam que, em 2024, as mulheres representavam apenas 14,2% dos profissionais no transporte rodoviário de passageiros de longo curso.
O dado revela uma contradição: ao mesmo tempo em que o setor se moderniza rapidamente, sua estrutura de capital humano ainda carrega padrões tradicionais.
É justamente nesse ponto que o Conexão Feminina se posiciona — não como um movimento confrontacional, mas como um mecanismo de transformação gradual, baseado em:
- qualificação técnica
- visibilidade
- networking estruturado
- acesso a ambientes estratégicos
De Porto Alegre a Caxias: uma trajetória em expansão
A etapa realizada em Caxias do Sul marca a evolução de um projeto que começou em Porto Alegre, reunindo lideranças e promovendo debates sobre inovação, gestão e cultura no transporte.
Ao chegar à fábrica da Marcopolo, o movimento dá um salto qualitativo: passa a integrar não apenas pessoas, mas também processos, tecnologia e indústria.
A lógica é clara: não basta discutir o setor — é preciso vivê-lo por dentro.
O que vem pela frente
As idealizadoras já sinalizam que o Conexão Feminina no Transporte não se limita a eventos presenciais. A estratégia inclui:
- encontros virtuais
- expansão para outras regiões do país
- construção de uma comunidade ativa e permanente
O objetivo é estruturar uma rede nacional que acompanhe a evolução do setor e amplie, de forma consistente, a participação feminina em todas as suas dimensões.
Mais do que inclusão, uma mudança de lógica no setor
O avanço do Conexão Feminina no Transporte revela uma mudança mais profunda: o setor começa a entender que seu futuro depende não apenas de tecnologia ou investimentos, mas também da diversidade de quem o constrói.
Num momento em que o transporte enfrenta transformações estruturais — da eletrificação à digitalização — ampliar a base de talentos não é apenas desejável. É necessário.
E, nesse contexto, iniciativas como essa deixam de ser periféricas para ocupar um lugar central na agenda do setor.
Perfil no Instagram:
Da esquerda para a direita: Carina Porto Silva Girondo e Luana Fleck, criadoras do Conexão Feminina no Transporte
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


