Publicado em: 25 de abril de 2026

Para o advogado Ilo Löbel da Luz mudança no perfil de quem viaja a trabalho pressiona empresas por fluidez, produtividade e segurança jurídica, redefinindo o valor da viagem no Brasil
ALEXANDRE PELEGI
O transporte rodoviário de passageiros vive uma inflexão silenciosa, mas estrutural. O perfil do passageiro corporativo mudou — e, com ele, a forma de medir valor em uma viagem. Se antes o foco estava no preço da passagem, hoje o centro da decisão passou a ser outro: o tempo.
Na prática, isso significa que cada etapa da jornada — da compra ao desembarque — passou a ser analisada sob a lógica de retorno sobre o investimento. O passageiro não quer apenas chegar ao destino. Ele quer chegar melhor: produtivo, descansado ou, no mínimo, sem ter desperdiçado horas em processos ineficientes.
Para entender esse movimento e seus impactos no setor, o Diário do Transporte conversou com o advogado e consultor Ilo Löbel da Luz, especialista em regulação do transporte rodoviário de passageiros. Na avaliação dele, o setor entrou definitivamente na era em que o tempo do passageiro se tornou o principal ativo em disputa.
“O que a gente está vendo não é uma mudança de preferência, é uma mudança de lógica. O passageiro corporativo passou a tratar o tempo como moeda. E isso altera completamente a forma como ele enxerga o transporte”, afirma.
Segundo Ilo, essa transformação já é perceptível no comportamento de compra e na forma como o serviço é avaliado. “Em 2026, ninguém viaja mais ‘por viajar’. A presença física precisa gerar retorno. E esse retorno não está só no custo da passagem, mas no que acontece durante o trajeto. O tempo virou parte do cálculo econômico da viagem.”
Essa nova lógica reposiciona o próprio papel do ônibus. “Durante muito tempo, o rodoviário foi visto como alternativa de custo em relação ao aéreo. Hoje, ele pode ser outra coisa. Pode ser um ambiente de produtividade ou um espaço de descanso estratégico. Mas, para isso, precisa entregar condições reais para isso.”
Para Ilo, o ponto central passa a ser a fluidez da jornada. “O passageiro corporativo não tolera mais fricção. Cada minuto perdido em fila, em embarque manual, em parada mal planejada, é um minuto de produtividade que se perde. E isso, hoje, tem um peso enorme na decisão.”
Ele destaca que a exigência não é apenas operacional, mas também tecnológica. “A digitalização da jornada deixou de ser diferencial. Virou obrigação. Embarque ágil, integração de canais, previsibilidade. Tudo isso é o mínimo esperado. O passageiro quer que a viagem seja quase invisível do ponto de vista de esforço.”
Nesse cenário, investimentos que antes eram considerados acessórios passam a ter outro significado. “Quando você fala de sala VIP, de ambientes mais confortáveis, isso não é mais luxo. É gestão do tempo. O passageiro quer usar esse tempo — seja para trabalhar, seja para reduzir o desgaste. Quem não entender isso, perde competitividade.”
Ilo também chama atenção para a consolidação do conceito de bleisure no transporte rodoviário. “Esse movimento de combinar negócios e lazer — o chamado bleisure, que vem da junção das palavras em inglês business (negócios) e leisure (lazer) — já chegou ao setor. O profissional de hoje quer otimizar o tempo, mas também preservar a saúde mental. A viagem não pode ser um desgaste que comprometa o desempenho dele no destino.”
Na prática, isso eleva o nível de exigência sobre o serviço. “O passageiro precisa chegar pronto. Parece simples, mas não é. Isso envolve conforto, silêncio, estabilidade, previsibilidade. Envolve toda a experiência.”
Apesar da pressão por inovação e qualidade, Ilo ressalta que há um elemento estruturante que não pode ser negligenciado: a segurança jurídica. “Não existe inovação sustentável sem base regulatória sólida. A operação precisa estar absolutamente aderente às normas da Agência Nacional de Transportes Terrestres.”
Ele é direto ao apontar o risco de atalhos. “Não adianta criar um serviço premium se a operação está sujeita a interrupções, insegurança jurídica ou problemas de compliance. Isso destrói valor. A confiança do passageiro depende dessa retaguarda.”
Para o especialista, o papel da regulação é justamente permitir que a inovação aconteça com segurança. “A conformidade não é um freio. É uma base. É ela que dá previsibilidade para o investimento e estabilidade para a operação.”
Ao final, Ilo resume o momento do setor em uma frase que sintetiza a transformação em curso: “Hoje, o sucesso de uma linha não está só em quantos passageiros ela transporta, mas em quanto tempo ela respeita.”
E conclui: “O transporte rodoviário entrou definitivamente na disputa pelo tempo do passageiro. Quem entender isso e conseguir entregar uma jornada eficiente, fluida e confiável, vai capturar esse novo mercado. Quem não entender, vai ficar preso a uma lógica que já não responde mais ao Brasil de 2026.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


