Publicado em: 5 de maio de 2026

Conclusão é de estudo da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Custo das gratuidades seria de R$ 78 bilhões
ADAMO BAZANI
Colaborou Arthur Ferrai
Os efeitos da aplicação de uma Tarifa Zero nacional nos ônibus de todo o País para a economia brasileira podem ser semelhantes aos gerados pela Bolsa Família com a injeção no comércio, serviços e renda das pessoas na ordem de R$ 60,3 bilhões por ano. Mas, anualmente, a política custaria US$ 78 bilhões.
A conclusão é de um estudo denominado “A Tarifa Zero no Transporte Público como Política de Distribuição de Renda”, divulgado oficialmente nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, coordenado por equipes da Universidade de Brasília (UnB), Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): Thiago Trindade (UnB) – Coordenador geral; Ana Luísa Coelho Moreira (UnB); Breitner Luiz Tavares (UnB); Daniel Caribé (UnB); Daniel Santini (USP); Juciano Martins Rodrigues (UFRJ); Letícia Birchal Domingues (UnB); Lucio Rennó (UnB); Paulo Cesar Marques da Silva (UnB); Paulo Henrique da Silva Santarém (UnB)
Ainda de acordo com o trabalho, a injeção imediata de recursos na economia seria de R$ 45,6 bilhões:
Principais achados e resultados A partir do cruzamento de dados da PEMOB (2024), IBGE e indicadores operacionais de sistemas de ônibus e trilhos, o estudo revela que:
– Na hipótese da implementação de uma política da Tarifa Zero em âmbito nacional, considerando apenas o recorte territorial adotado pelo estudo, estimamos que haveria uma injeção de R$ 60,3 bilhões na economia brasileira, considerando as tarifas predominantes praticadas em abril de 2026. Atualmente, porém, com as isenções e gratuidades já existentes (idosos, estudantes, etc.) cerca de R$ 14,7 bilhões já circulam na economia nacional.
– Nesse sentido, a implementação da Tarifa Zero em escala nacional tem o potencial de injetar, de imediato, mais R$ 45,6 bilhões anuais na economia brasileira. Este valor representa o dinheiro que deixaria de ser gasto compulsoriamente com o transporte coletivo e passa a ser destinado a outras necessidades urgentes do cotidiano.
Para os pesquisadores, a Tarifa Zero deve ser encarada não apenas como política de mobilidade urbana, mas de distribuição de renda. Por isso, a pesquisa faz a relação direta com o Bolsa Família.
O estudo conclui que a Tarifa Zero deve ser compreendida não apenas como uma política de mobilidade, mas como uma poderosa ferramenta de distribuição de renda. No cenário atual de incertezas globais e desafios crescentes, a Tarifa Zero pode ter um papel tão relevante para o Brasil quanto o Programa Bolsa Família teve no início do século XXI, atuando como um motor de dignidade e cidadania, além de contribuir para amenizar desigualdades regionais. Em consonância com os demais estudos já publicados no âmbito desta pesquisa, recomenda-se a criação de mecanismos de financiamento extra-tarifários que permitam a desoneração total dos usuários, transformando a mobilidade em um direito social efetivo. Ao converter o gasto com passagens em renda disponível, o Estado promove uma injeção de liquidez capaz de dinamizar o mercado interno, reduzir a segregação racial e espacial e consolidar um novo patamar de desenvolvimento inclusivo para as metrópoles brasileiras.
O estudo foi financiado pela Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero no Congresso Nacional, e conta com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.
Esta publicação é parte integrante do projeto de pesquisa “Tarifa zero e suas possibilidades de expansão no Brasil” , desenvolvido no âmbito do Instituto de Ciência Política (IPOL) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP) da Universidade de Brasília (UnB). A pesquisa é conduzida pelo Grupo de Pesquisa Geopolítica e Urbanização Periférica (GeoUrb) e pelo Núcleo Brasília do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Observatório das Metrópoles em parceria com a Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero do Congresso Nacional, responsável pelo financiamento. Os gabinetes financiadores são: Deputado Federal Jilmar Tatto (PT-SP); Deputada Federal Luiza Erundina (PSOL-SP); Deputada Federal Érika Kokay (PT-DF); Deputada Federal Talíria Petrone (PSOL-DF). O projeto conta também com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.
Ainda de acordo com o estudo, o atual modelo de tarifas de ônibus amplia as desigualdades sociais e a pobreza com o comprometimento dos ganhos das famílias de menor renda ou a exclusão dos sistemas de transportes que, na prática, acaba sendo exclusão do acesso ao emprego, saúde, educação, lazer, entre outros direitos básicos:
Os dados e análises apresentados ao longo deste texto evidenciam que a tarifa do transporte coletivo, longe de ser um mero instrumento de financiamento do sistema, atua como um mecanismo ativo de manutenção e de ampliação das desigualdades sociais. Ao impor um custo desproporcional justamente sobre aqueles grupos que mais dependem do transporte público – em especial a população negra, as mulheres e os segmentos de menor renda –, o modelo tarifário vigente amplia a pobreza, restringe o acesso a oportunidades, limita a circulação e, em última instância, compromete o exercício pleno de direitos fundamentais. Assim, à semelhança do impacto estrutural provocado pelo PBF no início do século XXI, a implementação da Tarifa Zero possui o potencial de inaugurar um novo ciclo de combate às desigualdades e à pobreza no Brasil. Sob a ótica da justiça distributiva, a desoneração do transporte público atua como um mecanismo de transferência de renda indireta, ampliando o poder de consumo das famílias em situação de pobreza ao liberar recursos anteriormente vinculados à mobilidade urbana. A implementação da Tarifa Zero em escala nacional reforçaria o protagonismo do Brasil na vanguarda das experiências globais de redução de desigualdades e aprofundamento democrático. Esta política alinha-se aos paradigmas contemporâneos de desenvolvimento, que visam articular a equidade social e o combate às desigualdades raciais com a transição ecológica. Ao desestimular o transporte individual motorizado e contribuir para incentivar o modal coletivo, a Tarifa Zero não apenas atende às demandas históricas de movimentos e organizações civis, mas também consolida uma proposta de cidade democrática e sustentável fundamentada no acesso universal e na justiça distributiva.
FINANCIAMENTOS:
Mas de onde viria o dinheiro?
Para os pesquisadores, uma das formas de financiar uma Tarifa Zero Nacional seria trocar o atual modelo de Vale-Transporte por uma contribuição obrigatória sobre empregadores com dez ou mais funcionários.
Segundo estimativa dos coordenadores da pesquisa, 81,5% dos estabelecimentos industriais e comercias do Brasil são de menor porte e estariam de fora.
O Diário do Transporte mostrou em 29 de abril de 2026 que criar uma contribuição sobre a folha dos pagamentos de empregados em vez de o modelo de vale-transporte tradicional poderia reduzir em até pela metade as tarifas de ônibus, trens e metrôs de todo o Brasil. É o que aponta um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado nesta semana pelo Governo Federal.
Relembre:
“TARIFAS ZERO PONTUAIS”
Em 28 de abril de 2026, o Diário do Transporte mostrou o lançamento de uma linha de ônibus em Santo André, no ABC Paulista, com tarifa-zero. Mas a cidade decidiu não adotar em todo o sistema de transportes. Preferiu identificar onde, inicialmente, as pessoas teriam mais necessidade. Chamado de “Circular Luzitinha”, é um micro-ônibus que liga sem cobrança de tarifa comunidades carentes ao terminal do maior bairro próximo, o Terminal Vila Luzita, numa área onde não havia transportes e de difícil acesso.
A estimativa é que por morador beneficiado, a prefeitura desembolse somente R$ 2 (dois reais) por mês.
Agora, a cidade já pensa em outro tipo de gratuidade pontual: vincular o transporte aos dados do SUS e não cobrar a tarifa nos dias da consulta na linha Circular da Saúde B45 (Hospital Mário Covas – Bairro Paraíso / Vila Luzita – Jardim Represa), que liga 10 unidades de saúde da cidade e hoje tem tarifa normal.
Relembre:
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


