28.2 C
Rondonópolis
quinta-feira, 16 abril - 18:23
- Publicidade -
Publicidade
HomeTransportes“É hora de o Brasil investir nas fontes energéticas disponíveis aqui, nos...

“É hora de o Brasil investir nas fontes energéticas disponíveis aqui, nos mostra a guerra (de novo)”, diz fabricante


Foto: À direita, Milena Braga Romano. À esquerda e à cima, ônibus “jardineira” a gasogênio, solução emergencial diante da Segunda Guerra Mundinal. Abaixo, ônibus elétrico moderno.

Diretora-presidente da Eletra Industrial, Milena Braga Romano, fabricante do setor de ônibus elétricos, que vem de uma família que opera há mais de 115 anos nos transportes, relata as oportunidades perdidas pelo Brasil ao longo da história e conta que a eletromobilidade é a chance do País em se tornar autossuficiente de fato

ADAMO BAZANI

Não é de hoje que, diante de conflitos como o atual, entre os Estados Unidos-Israel e Irã, o Brasil se vê praticamente em desespero por causa da extrema dependência de combustíveis que têm origem no Petróleo.

As pressões sobre os custos de transportes e produção fazem com que o Governo (independentemente de quem esteja à frente do Palácio do Planalto), para evitar um colapso geral, injete bilhões e bilhões de reais em políticas não desenvolvimento, mas de socorro para estancar crises e mais crises.

Algo que no Brasil é inadmissível diante da abundância, quase únicas no mundo pela variedade e quantidade, de fontes alternativas de energia que não sejam as originárias do Petróleo.

A opinião é da diretora-presidente da Eletra Industrial, Milena Braga Romano, empresa com capital 100% nacional do setor de ônibus elétricos.

A empresária vem de uma família que atua há 115 anos nos transportes coletivos e conta a experiência de seus antecessores.

Em outros momentos, o Brasil também se viu aflito diante da escassez e altos preços dos derivados de Petróleo. O setor de transportes se “virou”: ônibus a gasogênio nos anos 1940 por causa da Segunda Guerra Mundial (inclusive, no acervo de veículos da família há um exemplar restaurado); a álcool e novas gerações de trólebus (ônibus elétricos conectados à fiação aérea).

Mas sempre que o pior de cada crise passava, pouco era feito para deixar o País menos dependente do Petróleo. Não havia nunca uma continuidade de fato.

Milena Braga Romano conversou com o editor-chefe e criador do Diário do Transporte, Adamo Bazani. Mesmo produzindo tecnologia nacional para ônibus elétricos, Milena acredita que cada solução pode ter uma aplicação correta, sem brigas e ideologias, e não deixa de reconhecer também a importância dos transportes ferroviários.

Confira:

Adamo Bazani: Por que a senhora afirma que não há mais lógica em depender majoritariamente das fontes de energia derivadas do Petróleo? Vamos aprender desta vez?

Milena Romano: Nunca ninguém ganha com uma guerra. São vidas perdidas, crises econômicas, morais, margem para oportunismo e confiança perdida. Mas, às duras e injustificadas penas, lições são geradas ou ao menos confirmadas. Se aprendidas, é outra história. É o que temos visto com esta guerra no Oriente Médio, independentemente de qualquer lado, no caso das fontes energéticas para os transportes e as atividades econômicas em geral. Só que a lição é repetida e parece que não aprendemos. Será que desta vez vamos aprender? A nossa economia está novamente em perigo por causa de nossa dependência do diesel no mercado internacional. Nossa matriz de transportes, calcada nas vias urbanas e rodovias, é essencialmente diesel-dependente. Minha pergunta é. Qual a lógica disso se o Brasil é riquíssimo em outras fontes energéticas que não sejam o petróleo, que além de serem menos poluentes, contribuindo com o meio ambiente e a saúde das pessoas, se mostram economicamente vantajosas e socialmente também, já que geram empregos e renda aqui?

Adamo Bazani: A senhora atua à frente de uma empresa, fundada por seus familiares, que há mais de 30 anos atua na produção de tecnologia para os transportes coletivos elétricos. A eletromobilidade pode ser estratégica neste momento?

Milena Romano: No caso da eletrificação de nossos ônibus, caminhões e carros, não podemos perder mais tempo e devemos avançar mais agora. Podemos até ser autossuficientes em petróleo, mas não no refino para a produção do diesel.

O reflexo disso? Todo o conflito ou oscilação internacional ficamos em desespero, com medo de recessão, inflação e desemprego. Os cofres públicos sangram bilhões e bilhões de reais do dinheiro do contribuinte não para medidas de crescimento e desenvolvimento, mas para estancar a sangria.

E tudo isso, num País que tem a maior reserva de água doce do Planeta e está entre os que mais geram energia elétrica de maneira limpa por hidrelétricas.

Adamo Bazani: E a experiência de mais de 115 anos de sua família no setor de transportes diante disso? O que seus antecessores nos negócios contam e transmitiram à senhora?

Milena Romano: Vou contar uma história. Parece que é uma lição que ainda não se aprendeu. Minha família é uma das pioneiras no Brasil em transportes, atuando há mais de 115 anos no ABC Paulista. Nasci num lar que respira mobilidade e vi e ouvi histórias que sempre me intrigaram.

Por causa da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), houve uma grande crise de Petróleo no Mundo. Para os nossos ônibus, para os caminhões e para a economia não pararem, foi adotada a medida emergencial do “gasogênio”. Os ônibus e caminhões andavam na traseira com enormes “fornalhas”, um dispositivo que convertia materiais sólidos, como madeira ou carvão, em um gás pobre e altamente poluente, provocando até câncer, que servia de combustível. Inclusive, em nossos acervos de ônibus antigos temos um exemplar restaurado, com equipamentos feitos pela “Irmãos Platzer”, uma metalúrgica de Santo André (SP) que não existe mais.

Entre o fim dos anos de 1970 e início de 1980, foi a vez das tentativas de veículos a álcool, com o Pro-Álcool inclusive, também por causa de conflito no Oriente Médio. Meus pais e tios se lembram de um ônibus seletivo rodoviário, monobloco da Mercedes-Benz, que outro grupo empresarial, o da Urubupungá, de Osasco, testou.

E por aí foi a história.

Hoje, nossa tecnologia evoluiu.

Adamo Bazani: A eletromobilidade é uma das chances então do Brasil? Como aplicar as soluções existentes? E os transportes ferroviários neste contexto, mesmo a senhora sendo empresária do setor de ônibus?

Milena Romano: Sou empresária do segmento de transportes coletivos elétricos, mas tenho a consciência de que há mais fontes como alternativas, isso sem contar com a necessidade de se investir mais em ferrovias.

Qual é a melhor destas alternativas? Todas. Desde que se escolha as mais adequadas para cada aplicação.

A eletromobilidade está entre as grandes chances de o Brasil se tornar de fato autossuficiente em energia. Abolir de vez com o diesel? Claro que agora não. O que não dá é para continuar dependendo de um tipo de matriz energética.

Essa crise vai passar. E aí? Guardaremos dinheiro para o remédio paliativo se a febre voltar ou vamos ao tratamento para nos curarmos?

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



Fonte

RELATED ARTICLES

Most Popular

Recent Comments